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História do Recife

  • 21 de ago. de 2016
  • 94 min de leitura

O mapa é uma representação. Nele sintetizamos informações, procuramos visualizar aspectos da realidade. Entre o Recife do século XVI, tempo do início da ocupação portuguesa, e o Recife onde vivemos existem diferenças imensas. Algumas estão evidenciadas na análise comparativa dos mapas: são áreas de ocupação distintas, concentradas em espaços diversos que se modificaram no correr dos anos, à medida que as relações com a natureza se alteraram. As comunidades humanas transformam-se com o passar do tempo, mas há permanências. Há um ritmo nessas mudanças, ora lento, ora veloz. Na construção de cada história, de cada pessoa ou lugar, há um diálogo constante entre o passado e o presente, diálogo muitas vezes silencioso, difícil de ser entendido, porém de uma importância fundamental para o conhecimento/reconhecimento de cada história, povoada de gestos, símbolos, desejos, recordações, esperanças, mistérios.

O Recife é, atualmente, uma grande metrópole, convivendo com a velocidade e a sofisticação das tecnologias mais do que modernas. Nas suas ruas circulam milhares de automóveis apressados. Os ruídos atravessam os dias e as noites, parece que a cidade não descansa, não tem tempo para contemplar a sua própria imagem. Mais de um milhão de pessoas vivem e sobrevivem, produzem riquezas, trocam experiências, vivenciam suas afetividades, disputam espaços de poder e de cidadania. São muitas as diferenças entre as pessoas, entre os lugares, retratando a heterogeneidade econômica e cultural tão presente no nosso cotidiano. Apesar de toda transformação trazida pela modernização, há muita coisa que ainda resiste, há olhares presos nas imagens dos tempos de outrora, há memórias que temem o futuro como uma grande e destrutiva ameaça.

O contar e o fazer

A cidade é, na verdade, a grande moradia dos homens, ponto de encontro e desencontro dos seus sonhos e dos seus desejos, cenário principal dos tempos modernos. O Recife tem sua singularidade, experiências históricas próprias, que lhe dão uma identidade, que o fazem diferente. Mas tem também hábitos e comportamentos que a caracterizam como uma cidade moderna, com suas dificuldades e contradições sociais. A história deve ser analisada nessa dimensão da multiplicidade e a cidade se alimenta dessa capacidade de invenção cotidiana, em muitos aspectos imprevisível, dos seus habitantes.

Nem tudo pode ser esclarecido ou contado, descoberto ou revelado. Assim, a construção da história lida com limites, defronta-se com as armadilhas da memória, com as tantas perdas materiais que evitam que certos acontecimentos sejam registrados, com os conflitos políticos que criam versões que se chocam, confundindo e provocando debates. É sempre recolocada a questão: para que serve a história? Ou outra, talvez ainda mais complexa: qual é a história verdadeira? Contar a história é enfrentar dúvidas, é não perder de vista que há uma relação entre o que se conta e o que se faz. No diálogo entre o passado e o presente, entram também as expectativas que temos diante do futuro. As perguntas que o historiador faz e a história que ele escreve estão articuladas com as questões do tempo no qual vive, não são neutras, mas marcadas pela sua época e pela sua subjetividade.

Nas histórias que escutamos, desde os nossos primeiros anos de vida, há sempre uma preocupação com a origem das coisas, mesmo quando não conseguimos datá-la com precisão. Não seria diferente com relação às origens do Recife, mas isso não impede que façamos esse mergulho no passado. É importante situar-se no tempo, mesmo que haja incertezas, mesmo sabendo que "tem horas antigas que ficaram muito mais perto do que outras em recente data", como escreve Guimarães Rosa, em Grande Sertão: veredas. Assim, poderemos seguir viagem, reconstruir lembranças, consultar fontes, fazer um desenho histórico do que foi o Recife no século XVI.

O vasto e o pequeno mundo

O século XVI vivenciou uma grande expectativa com relação a um novo mundo que surgia. A expansão marítima européia trouxe novidades atraentes, surpresas inesperadas. Não só aumentou a quantidade de riqueza que passou a circular por mares "nunca dantes navegados", mas mexeu com hábitos seculares, esclareceu enigmas, desfez medos, anunciou expectativas. Era preciso também viver, contar o que estava acontecendo, participar dessa aventura sedutora. Povos de culturas diferentes se aproximavam, mais do que isso, se chocavam. O vasto mundo que se formava era bem mais vasto do que seus corações. Eram tempos de conquista.

A chegada dos europeus

A colonização européia das terras americanas fez-se de maneira violenta, com poucos diálogos, muita ambição e extermínio dos mais fracos. Os que aqui habitavam tinham escassos recursos para resistir, as diferenças culturais eram imensas, a vontade de poder, mais ainda. Nunca as veias do continente americano ficaram tão expostas, tão abertas, parodiando o escritor Eduardo Galeano. A cruz e a espada tornaram-se os grandes símbolos desse grandioso empreendimento.

O que viria a ser chamado Brasil foi ocupado pelos portugueses, interessados em buscar ganhos materiais que lhes dessem um lugar privilegiado no continente europeu. Convivia-se com essa expectativa, sobretudo com o sonho dourado de descobrir e explorar minas de metais preciosos. Nem tudo ocorreu como se esperava. A grande riqueza que garantiria, inicialmente, os primeiros sucessos da colonização portuguesa foi a cana-de-açúcar e a capitania de Pernambuco, o lugar mais fecundo para sua produção. Fundaram-se engenhos com a ajuda, inclusive, de capitais holandeses. Uma doce riqueza, uma estrutura de produção sustentada na amargura do trabalho escravo, marca de uma sociedade que montou uma rígida hierarquia social.

O Recife aparece olhando para o mar, mas vizinho dos canaviais. Descrevendo o espaço físico no qual se assentou o Recife, diz Josué de Castro: "É essa planície constituída de ilhas, penínsulas, alagados, mangues e pauis, envolvidos pelos braços d'água dos rios que, rompendo passagem através da cinta sedimentar das colinas, se espraiam remansosos pela planície inundável. Foi nesses bancos de solo ainda mal consolidados - mistura ainda incerta de terra e de água - que nasceu e cresceu a cidade do Recife, chamada de cidade anfíbia, como Amsterdã e Veneza, porque assenta as massas de sua construção quase dentro de água, aparecendo numa perspectiva aérea, com seus diferentes bairros flutuando esquecidos à flor das águas". Um pequeno mundo, um povoado, não muito distante de Olinda, cerca de uma légua, Olinda que era o lugar central do poder e da riqueza da capitania de Pernambuco, governada, nos primeiros tempos, pelo dinâmico Duarte Coelho. A mais antiga referência sobre o Recife é de 1537, no chamado Foral de Olinda, no qual está determinado o estatuto jurídico da propriedade da terra. As regras de apropriação da terra dependiam da doação donatarial. Povoado onde viviam pescadores, marinheiros e mercadores que por aqui passavam, em torno de uma ermida de São Pedro Gonçalves, chamada de Corpo Santo, fazia parte do território de Olinda até a Carta Régia de 19 de novembro de 1709. Denis Bernardes observa que "primitivamente, a povoação do Recife compreende a área propriamente portuária, o atualmente chamado Recife Velho", mas faz uma importante ressalva afirmando que "o território da futura cidade, fora da sua faixa portuária, já era objeto de menção e cedo passa a ser objeto de posse e uso...". Registre-se que a função portuária foi a de maior dinamismo e "superaria muitas das condições desfavoráveis ao estabelecimento humano em uma faixa de areia que por certos aspectos lhe era adversa", acrescenta Bernardes.

Uma terra feita de açúcar

O olhar do presente sobre esse pequeno povoado pode despertar sonhos de que nele se vivia como no paraíso. As dificuldades que a cidade enfrenta na sua relação desequilibrada, atualmente, com a natureza, alimentam esses desejos de retorno. Criam-se fantasias, resultado das carências de cada época. As dificuldades existiam, não eram poucas. Apesar do mundo de água, dos rios, dos manguezais com seus caranguejos e mariscos, ressentia-se da falta de água potável, de um abastecimento alimentar mais contínuo e até mesmo de madeira para ser utilizada como lenha.

As condições do solo influenciavam na falta de produtos agrícolas, mas o Recife cresceria a partir das suas atividades mercantis, o seu porto lhe garantiria sua ligação com o vasto mundo, porta de saída da produção açucareira e de entrada de tantas outras mercadorias. Tornava-se um lugar de comércio. A prosperidade do porto estava vinculada à boa situação inicial da capitania de Pernambuco. O movimento do porto, em 1584, era de cem navios e já se produzia em 1589, na capitania, cerca de 200 mil arrobas de açúcar.

Havia um sistema de segurança para evitar as invasões estrangeiras. Era grande a disputa pelas terras e mais ainda pelos produtos. Era época do mercantilismo, media-se a riqueza das nações pelo sucesso da sua balança comercial, pelo êxito das suas exportações. O Recife guardava, nos seus armazéns, caixas de açúcar, preciosa mercadoria, ambicionada pelos piratas que navegavam pelos mares, muitas vezes, com o consentimento e ajuda de grandes nações. Outra riqueza também atraía, era o pau-brasil, muito comum nas costas pernambucanas. Não faltavam, portanto, aventureiros dispostos a lutar e carregar seus navios com os bens das terras americanas. Os franceses, quando expulsos por Mem de Sá, estiveram no Recife em 1561, mas terminaram por ser derrotados, como foram os ingleses que em 1595 chegaram a ocupar o povoado por 30 dias.

Em 1578, Cristóvão de Barros defendia a necessidade de se construir uma fortaleza para proteger a barra do Recife. Segundo descrição de Josué de Castro, foi construído um sistema de fortins que, nas primeiras décadas do século XVII, tinha a seguinte estrutura: "o primeiro deles ficava no lado sul da entrada da barra, assentado sobre arrecifes, e fora cognominado de Forte da Laje ou Forte do Mar, sendo depois crismado pelo povo como Forte do Picão; o segundo, ficava em frente ao primeiro, assentado no areal do istmo, a 500 metros ao norte da povoação, e fora batizado como Forte de São Jorge; o terceiro ficava a 500 metros ao norte do segundo, no mesmo istmo, e chamava-se do Bom Jesus". O esquema de segurança que foi sendo montado pela metrópole portuguesa mostra a excelência do porto, com seus arrecifes, lugar estratégico para negócios, sendo já, no final do século XVI, o porto de maior movimento da América portuguesa.

A simples povoação foi-se transformando e se expandindo. As atividades comerciais ganhavam espaço e para isso certas benfeitorias e serviços eram precisos. Portugal fazia investimentos, organizava a administração, colocava funcionários, fiscalizava a circulação da riqueza. Cresciam as construções e a própria convivência com os chamados estrangeiros. Troca de hábitos, informações, moedas e mercadorias. Formava-se um núcleo urbano que estreitava, lentamente, seus laços com o mundo europeu. Quando os holandeses aqui aportaram, não encontraram mais o acanhado "Povo dos Arrecifes". Começam outros tempos, seguem-se outras histórias, com suas permanências e suas mudanças.

A CONQUISTA FLAMENGA

A Holanda brasileira

7 mil homens, em 67 navios, desembarcaram na praia de Pau Amarelo, em 16 de fevereiro de 1630. Assim começava a invasão holandesa a Pernambuco. O rico açúcar produzido na região aguçou a cobiça dos conquistadores, que se instalaram no Recife e dominaram a região por 24 anos.

A riqueza

O ouro tem a representação quase mundial da riqueza. Mas nem tudo que reluz é ouro. Nos tempos coloniais brasileiros, o açúcar foi a grande riqueza. Os engenhos e as plantações de cana-de-açúcar se multiplicaram, sobretudo nas terras pernambucanas. Portugal trazia para o Brasil experiências feitas em suas possessões africanas, como a Ilha da Madeira, onde, nos finais do século XVI, existiam cerca de 150 engenhos. O açúcar era um produto que se valorizava e ganhava espaço na dieta alimentar dos europeus. Tornava-se popular. Antes da colonização e da expansão da produção no Brasil, a Europa consumia açúcar trazido do Oriente ou fabricado no próprio continente, com destaque para a região da Sicília, na Itália.

A produção do açúcar era, na colônia portuguesa, voltada para o mercado externo, caracterizada pela grande propriedade monocultora e pelo uso da mão-de-obra escrava. Segundo documentos da época, variava de oitenta a cem o número de trabalhadores por engenhos. Havia também trabalhadores livres, em pequeno número. Para consolidar a produção da sua colônia, Portugal contou com a participação dos holandeses. O economista Celso Furtado afirma, em seu livro Formação econômica do Brasil, que "os holandeses eram nessa época o único povo que dispunha de suficiente organização comercial para criar um mercado de grandes dimensões para um produto praticamente novo, como era o açúcar".

Os holandeses entravam, além disso, com capitais, financiando equipamentos e atuando até mesmo no tráfico de escravos africanos, atividade bastante rentável naquela época. Nas últimas décadas do século XVII, estima-se que a população escrava no Brasil era maior que a de homens livres. Tínhamos, na colônia, uma sociedade escravocrata e patriarcal, fortemente hierarquizada, convivendo com o poder da Igreja Católica, preocupada em aumentar o número dos seus seguidores, depois do forte abalo sofrido com a Reforma Protestante. Era uma sociedade que retomava práticas ultrapassadas e opressoras para alimentar a economia. A religião católica, dominante, defendia princípios de amor e generosidade que, na prática, muito pouco se concretizavam.

A cobiça

O Recife, que já havia apresentado sinais de prosperidade no século XVI, iria expandir-se mais ainda no século XVII. O seu porto consolidava-se como espaço privilegiado, não só de escoamento do açúcar, mas também de entrada de escravos, mercadoria de grande valor e imprescindível ao sistema de produção colonial. O chamado sítio urbano do Recife se alargava. No entender do historiador Denis Mendonça Bernardes, um fato importante nesse processo foi a instalação dos padres franciscanos em terras a eles doadas na ilha do Porto dos Navios, atualmente bairro de Santo Antônio. Ia-se processando, segundo Bernardes, "a ocupação de áreas fora da Povoação do Recife, acompanhada da valorização mercantil das mesmas e dando ocasião a investimentos de caráter imobiliário".

O Recife tinha sua ligação com o mundo do mercantilismo, sob a hegemonia européia, mas era também uma sociedade com dinâmica interna própria. Não podemos desconsiderá-la. Os holandeses invadiram Pernambuco com o firme propósito de se apossar de suas riquezas. O que os guiou foram a cobiça e as intrigas políticas, o olho grande das nações européias procurando acumular riquezas e consolidar interesses. A burguesia holandesa era próspera, não era católica, mas calvinista, portanto mais liberta para exercitar as ambicões capitalistas, segundo registram as experiências históricas de acumulação de riquezas em diversos países da época posterior à Reforma Protestante. Sofria com entraves políticos, pois os chamados Países Baixos faziam parte das possessões espanholas.

A relação de comércio dos holandeses com os portugueses era intensa. Problemas na sucessão do trono português, desencadeados pela morte de D. Sebastião e seu sucessor, cardeal D. Henrique, levaram à formação da União Ibérica (1580-1640), com a Espanha passando a governar Portugal e suas colônias. As intrigas existentes impedem que os holandeses desenvolvam suas atividades lucrativas como antes, eles que desde a segunda metade do século XVI estavam envolvidos com o mercado de açúcar.

A Espanha impôs um bloqueio comercial que impediu a expansão das companhias holandesas. Restava o uso da força militar. Preparou-se uma expedição para invadir a Bahia, com 26 navios que aportaram em Salvador a 9 de maio de 1624, com sucesso inicial. No entanto, construiu-se uma resistência local que, com a ajuda de tropas espanholas, conseguiu derrotar os invasores holandeses a 1 de maio de 1625. Pernambuco, com mais de 120 engenhos, passaria a ser, então, o grande alvo. Organizou-se uma frota com 67 navios e cerca de 7 mil homens, que desembarcaram na praia de Pau Amarelo, em 16 de fevereiro de 1630, comandados por Hendrick Loncq e Diedrich van Waerdenburgh.

A Companhia das Índias Ocidentais foi a organizadora das expedições. Fundada em 1621, representava os interesses dos comerciantes holandeses, com direito exclusivo de negociar, durante 24 anos "com as costas e terras da África, situadas entre o Trópico de Câncer e o Cabo da Boa Esperança; com as terras e ilhas da América ou Índias Ocidentais, a partir da ponta meridional da Terra Nova pelo estreito de Magalhães até o estreito de Anjan e, também, com as regiões austrais que ficavam entre os meridianos do Cabo da Boa Esperança e a costa oriental da Nova Guiné", como descreve Netscher em sua obra Os Holandeses no Brasil. Era um espaço destinado a saques e conquistas. O Brasil estava, como já vimos, nos planos da Companhia. Daí, a persistência: derrotados na Bahia, invadem Pernambuco.

A conquista

Não foi difícil, inicialmente, a tarefa das tropas holandesas. A conquista de Olinda e do Recife se deu em poucos dias. Havia uma enorme diferença com relação aos recursos militares. Os habitantes fugiam e o governador da capitania de Pernambuco, Matias de Albuquerque, não teve meios para enfrentar os holandeses. Procurou estabelecer a tática de guerrilhas e conseguiu inibir, em parte, o avanço das tropas inimigas. Olinda foi ocupada com facilidade, mas só destruída em 1631. O Recife tornou-se o centro de referência para as manobras comerciais e militares dos holandeses, que tinham suas dificuldades. Não era fácil manter as tropas: exigia recursos dos mais variados, como água e madeira.

Ambos os lados procuraram reforços. A Cia. das Índias enviou mais 16 navios, com 850 soldados, munição e víveres. Já Portugal e Espanha enviaram tropas comandadas por D. Antonio Oquendo. Houve enfrentamento com perdas significativas para as duas forças militares. A embarcação do comandante holandês Adrian Pater foi incendiada, mas os holandeses conseguiram aprisionar um navio das tropas adversárias com mantimentos e munições. A luta continuava e os holandeses procuravam estabelecer alianças com os moradores da terra. Muitas tribos indígenas passaram a ajudar os holandeses, sem falar dos cristãos-novos, de senhores de engenho e escravos.

A ajuda era importante não apenas como reforço para guerra. As informações sobre o território eram valiosas, podiam evitar avanços dos inimigos e ampliar a área conquistada. Assim, as informações fornecidas por Domingos Fernandes Calabar, considerado por muitos como um traidor da "causa nacional", terminaram por impulsionar as conquistas holandesas. Calabar serviu como guia das tropas holandesas, inclusive para conquista de Igarassu. Segundo Netscher, os holandeses encontraram a maioria da população ouvindo missa, despreparada para defesa. Morreram "100 pessoas das que habitavam a vila e outras tantas ficaram prisioneiras".

A permanência

Apesar das despesas, os holandeses buscaram ampliar suas conquistas. As perdas financeiras da Cia. das Índias Ocidentais eram imensas com a manutenção de 806 navios e mais de 67 mil homens, entre marinheiros e soldados, atuando no vasto território de ação. Havia necessidade imediata de lucros, mas a guerra não cessava e a ocupação da zona rural exigia constantes combates. Encontravam resistências, entre elas das tropas sitiadas no Arraial do Bom Jesus, que só foram derrotadas em 1635. Mas seguiram adiante, apossando-se de Itamaracá, Paraíba e Rio Grande do Norte. Não havia como abandonar essa aventura que tomava proporções inesperadas.

A resistência ao domínio holandês não era unânime. Diante de tantos prejuízos, era preciso buscar formas de conciliação, pois a colônia parecia abandonada à sua própria sorte, diante dos problemas que a Espanha encontrava na Europa, com a Guerra dos 30 anos (1618-1648), contra a França. Assim, muitos proprietários de engenhos aproximaram-se dos holandeses. Fazia-se necessária uma reorganização da produção, bastante abalada com os incêndios nos canaviais. A Cia. das Índias Ocidentais, por sua vez, agia para recuperar seu investimento.

Nomeou, em 1637, o conde Maurício de Nassau (1604-1679), então com 33 anos, de origem alemã, muito prestigiado na Holanda por seus feitos militares e por sua capacidade administrativa para cuidar dos interesses da Companhia, mantendo, com sua habilidade política, a estrutura de poder a seu favor. "Era como que uma figura do Renascimento, amigo e protetor de letrados e artistas e comprazendo-se na sua companhia", segundo afirma o historiador José Antônio Gonsalves de Mello, ao analisar o domínio holandês na Bahia e no Nordeste.

Qualidades, portanto, não faltavam a esse jovem militar que percebia um salário mensal de 1.500 florins. Tinha amplos privilégios: governador e capitão-mor de terra e mar, devendo superintender tudo o que se referisse ao bem público. Além disso, tinha pretensões e postura de mecenas. Trouxe com ele dois pintores, Frans Post e Albert Eckout e cientistas como Willem Piso e Jorge Marcgrav. Iniciava-se, sem dúvida, um novo período do domínio holandês. O Recife mostrava sinais de prosperidade, tinha ares de uma cidade moderna. Nela, junto ao mar, os holandeses sentiam-se em casa: muitos pareciam habitantes naturais.

Os tempos de Nassau ficaram na memória histórica como gloriosos e inesquecíveis. Existe um fascínio que continua. Quem não identifica tais tempos como de progresso? Quem não os vê como espelho maior das nossas virtudes? O culto da memória estimula a construção de um imaginário social e sua permanência. Nada melhor do que reconstruí-la para que possamos saber, talvez, se o real e a fantasia se confundem no final. A cidade tem suas histórias, trilhas sobre as quais desenhamos nossos caminhos, mas também desejos e esperanças. A história alimenta-se da memória e a memória das lembranças e dos esquecimentos. Por que são tão vivas ainda as imagens do conde e da sua Mauritsstad ou Maurícia?

O DOMÍNIO HOLANDÊS: PERDAS E GANHOS

O administrador da guerra

"Ao saltar em terra, receberam-no as pessoas gradas do lugar e o povo, e no semblante, nas homenagens, nas palavras, atestavam-lhe o seu acatamento, captando-lhe os mais as boas graças, como acontece de regra com os governos novos. Com alegria igual à modéstia, recebeu ele, como testemunhos de comum benevolência, estas saudações dos circunstantes e dos que ali concorriam".

Esse pequeno texto acima, do historiador holandês Gaspar Barléu, descreve a chegada de Nassau em terras brasileiras. As medidas iniciais do governante foram com a finalidade de se fortalecer para a guerra, para consolidar o domínio holandês. Conta Barléu que Nassau "julgou acertado atacar sem demora ao inimigo e iniciar a sua governança com as armas e a guerra, firmando seu poder e mostrando ao adversário a sua confiança, cousas que, mormente entre os estrangeiros, são os primeiros instrumentos para consolidar um principado".

João Maurício de Nassau, Conde Nassau-Siegen, primo de Maurício de Orange, governador-geral da Holanda, chegou no mês de janeiro de 1637. Não trouxe a força militar que havia lhe prometido a Companhia das Índias Ocidentais, mas apenas uma esquadra com 4 navios. Quando aqui se estabeleceu, os holandeses exerciam controle sobre as áreas litorâneas das capitanias de Itamaracá, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Nassau contou, segundo o historiador holandês P. M. Netscher, com a ajuda de 600 indígenas, num total de 4.400 homens, estimativa que não difere muito da feita por Barléu, para planejar o ataque e enfrentar as tropas luso-espanholas comandadas pelo experiente conde Bagnuolo, sediadas em Porto Calvo, atual Alagoas, Nassau conseguiu êxito que foi importante para afirmar-se como governante. As tropas inimigas renderam-se em 3 de março, depois de 13 dias de combate.

Nassau regressou ao Recife, procurando organizar sua administração e disciplinar suas tropas. Segundo Netscher, "Reinava então na colônia, uma perigosa corrupção de costumes originada, sobretudo, da falta de energia dos antigos governantes; a impunidade constituía regra geral (...) O soldado julgava nada existir de criminoso, além do equador, por isso se entregava a todos os excessos sem escrúpulos". Alguns foram punidos com condenação à morte, outros foram demitidos e voltaram para a Holanda. Com isso, assumia o controle da situação, centralizava suas ações, impunha seu poder sob seus comandados, ponto importante para conquistar o restante da população e corrigir os males trazidos pela destruição e pelos desregramentos da guerra.

O administrador da conciliação

Nassau ampliou suas ações administrativas. Na sua comitiva, vieram pessoas das mais diversas áreas do saber: desenhistas, naturalistas, pintores, arquitetos, médicos... Não era fácil, porém, conseguir conviver com costumes tão diferentes. Os holandeses eram, na sua maioria, protestantes, tinham no comércio sua atividade economicamente mais importante. A colonização portuguesa contava com a forte presença do catolicismo, tinha uma estrutura de produção agrária. Além disso, os ressentimentos trazidos pela lutas militares eram grandes. Nassau buscou contorná-los, tomando medidas para tranqüilizar os colonos. Os católicos puderam exercer livremente o seu culto, o mesmo acontecendo com judeus. A comunidade judaica tornou-se uma das mais importantes da América. O Recife era, na época, a mais, cosmopolita das cidades das Américas. Organizaram-se hospitais e foi permitido construir casas no Recife desde que não se aproveitassem dos materiais vindos das ruínas de Olinda.

Mas havia um problema que clamava por uma solução imediata: a falta de recursos. Nassau colocou à venda os engenhos abandonados, alguns deles avaliados em 100 mil florins. Tornava-se fundamental recuperar a produção açucareira, conseguir mais aliados entre os senhores de engenho, fornecendo-lhe crédito para adquirir escravos e cuidar das plantações. Nassau era um funcionário da Companhia, precisava mostrar competência, livrá-la de prejuízos. Além disso, procurava ser atencioso com os da terra, ouvindo pessoalmente suas queixas, combatendo os altos juros cobrados por investidores calvinistas e judeus que se aproveitavam da difícil situação de muitos proprietários para ganhar dinheiro com empréstimos.

Assim, consolidava-se o domínio holandês. Seu modelo administrativo tinha base no Conselho de Escabinos, com funções semelhantes às Câmaras nas Colônias Portuguesas. A habilidade política de Nassau visava facilitar o controle e evitar conflitos desgastantes. Chegou a convocar no Recife, como registra o historiador José Antônio Gonsalves de Mello, "uma assembléia de deputados da população luso-brasileira (1640), na qual - visando obter o seu apoio na luta para afastar do território os campanhistas - lhes deu oportunidade de apresentar queixas contra toda espécie de abusos de pequenos e altos funcionários holandeses e de sugerir providências". Seus relatórios administrativos primavam pelos detalhes, avaliando como se encontrava a área que governava.

Preocupou-se em aumentar o abastecimento alimentar existente, decretando em 1638 que "senhores de engenhos e lavradores de canaviais e de roças plantassem duzentas covas de mandioca por escravo que tivesse", ainda segundo Mello. Como exemplo de suas preocupações com a diversificação da produção agrícola plantou "junto a sua residência vasto pomar com árvores de fruto: 852 laranjeiras, 50 limoeiros, 80 pés de limões-doces, 80 romãzeiras, 66 figueiras, além de 700 coqueiros - que mandou transplantar para o seu jardim, já em pleno desenvolvimento, num trabalho técnico pioneiro - e ainda mamoeiros, jenipapeiros, mangabeiras, cajueiros etc.", conforme descreve o historiador Mello. Não se descuidou dos divertimentos. Festas de rua, cavalhadas, teatro e a famosa farsa do "boi voador" que, até hoje, permanece na memória da cidade.

O Recife, a cidade das Américas

Nassau tinha sido aconselhado, pelos diretores da Companhia, a fazer do Recife a sede do governo holandês, apesar de Itamaracá oferecer vantagens como a abundância de madeira e água. O Recife tinha, porém, um ótimo porto e a presença de uma estrutura de moradia em expansão. Ocupou o lugar que, antes, era de Olinda, tornando-se a capital de Pernambuco, ou melhor, dos domínios holandeses administrados por Nassau. Passou por várias reformas para atender o fluxo populacional que aumentava rapidamente com a presença dos holandeses. Segundo estimativas, a população do Recife chegou a totalizar 6 mil pessoas, contando com os soldados e os marinheiros. Sob a orientação de membros da corte de Nassau, constituiu-se, uma nova área de ocupação na ilha de Antônio Vaz, chamada de Mauritsstad ou Cidade Maurícia, onde antes só havia palhoças de pescadores e um convento de frades. Foi erguida onde atualmente fica o bairro de Santo Antônio. Enfim, um processo de modernização em pleno século XVII, numa colônia de tradição rural e agrícola.

Em 1644, duas grandes pontes foram construídas: uma ligava a povoação do Recife (atual Bairro do Recife) à Cidade Maurícia (hoje bairro de Santo Antônio), com 259 metros de comprimento, e outra ligando a Cidade Maurícia ao continente, onde hoje está o bairro da Boa Vista, medindo 318 metros. Segundo Gilberto Freyre, em seu livro Sobrados e Mucambos, os problemas de habitação eram grandes: "Sobrados estreitíssimos e, dentro deles, um excesso de gente. Gente respirando mal, mexendo-se com dificuldade. Às vezes oito pessoas dormindo no mesmo quarto. Verdadeiros cortiços. Os primeiros cortiços do Brasil". O Recife convivia com dificuldades dos tempos atuais. Faltava espaço para quem chegava. Os aluguéis subiam, pagando-se 120 florins, por mês, por uma moradia com dois quartos e uma saleta. Freyre critica a arquitetura trazida pelos holandeses para os trópicos, afirmando que "os telhados conservados, por tradição, nos sobrados mais velhos do Recife parecem acusar reminiscências tão fortes de telhados flamengos que ninguém se surpreenderia de ver escorrer por eles neve pura, neve do Norte da Europa, neve escandinava".

As observações de Freyre podem ser complementadas pelas do historiador José Antônio Gonsalves de Mello, no seu consagrado livro Tempo dos flamengos: "A nova cidade foi projetada por Nassau segundo planos urbanísticos definidos: ruas cortadas regularmente, saneamento da zona, escoamento das camboas, construção de pontes e de diques. Já hoje põe-se em dúvida a estada de Pieter Post no Brasil: mas o fato é que, graças a ele ou a outro qualquer engenheiro - como por exemplo Marcgrave - sob a assídua assistência do Conde, a futura capital foi iniciada com características da cidade segundo a concepção norte-européia. Conta frei Manuel do Salvador que o próprio Nassau andava pela ilha de cordão em punho, traçando as ruas e as praças, demarcando limites, construindo parques arborizados, "tudo à moda da Holanda". Não só as construções e reformas urbanas merecem ser lembradas. O grupo de sábios e letrados trazidos por Nassau deu contribuições até hoje importantes. Guilherme Piso escreveu a História Natural e Médica da Índia Ocidental e Marcgrave, História Naturalis Brasilae que revelou aspectos desconhecidos da natureza do Brasil. Estudos sobre a fauna e a flora existentes foram desenvolvidos, além de análises das doenças tropicais e suas possíveis curas. Dois pintores, Frans Post e Albert Eckhout, retrataram as paisagens e os tipos humanos brasileiros. Além disso, Nassau estimulou a produção em outras áreas do conhecimento, chegando a construir o primeiro observatório astronômico aqui existente. No teatro, apresentaram-se peças dos mais variados gêneros. Assim, viviam-se experiências modernas, lembrando o cotidiano de muitas cidades européias renascentistas. O Recife transformava-se, tornando-se "um dos pontos mais intensos de sifilização no Brasil". O número de prostitutas aumentou, inclusive, "o Recife se encheu de prostitutas holandesas", conta Gilberto Freyre. São os contrapontos da vida urbana, suas turbulências e seduções. A expulsão dos holandeses

Nassau parecia querer fixar bases no Brasil, mas foi demitido pela Companhia em 1643, indo para a Europa em 22 de maio de 1644. Não havia um bom relacionamento entre Nassau e seus superiores. Ele solicitava ajuda que não chegava, ao tempo em que a Companhia desconfiava das suas intenções e exigia lucros mais imediatos. Com Nassau, partiram também ricos comerciantes preocupados com o desenrolar dos acontecimentos. O contexto político apresentava, desde 1640, mudanças que afetavam os domínios holandeses no Brasil. Portugal libertou-se da Espanha e D. João IV, conde de Bragança, foi coroado rei. Assinou-se uma trégua de dez anos entre portugueses e holandeses (1641-1651). Mas crescia uma reação contra os holandeses por parte dos pernambucanos. A saída do Conde abriu mais espaço para a resistência. Em 13 de junho de 1645, iniciou-se a insurreição.

O descontentamento com os holandeses tinha razões econômicas. Os substitutos de Nassau mandaram cobrar as dívidas, ameaçaram confiscar terras, executar hipotecas e cortar os créditos que facilitavam a compra de escravos. Outras desavenças marcaram a reação dos da terra. Não havia mais a tolerância religiosa estimulada por Nassau. As diferenças entre católicos e protestantes se aprofundavam, não eram dissimuladas. Quatro personagens são considerados heróis dessa luta contra os holandeses, representando a diversidade étnica que formava a sociedade da época. João Fernandes Vieira, proprietário de engenhos, nascido na Ilha da Madeira; André Vidal de Negreiros, nascido na Paraíba, participante ativo na guerra contra os holandeses desde 1624; Antônio Filipe Camarão, nascido em Pernambuco, índio potiguar; Henrique Dias, não se tem certeza se nasceu liberto ou escravo, que morreu na Segunda Batalha dos Guararapes.

Os holandeses receberam reforços, mas não conseguiram derrotar as tropas inimigas. Foram vencidos em duas batalhas no monte dos Guararapes, em 1648 e 1649, mas ainda resistiram. Ficaram sitiados no Recife, durante cinco anos. Nesse período, conta Pedro Puntoni, "os holandeses saqueavam qualquer navio de bandeira portuguesa e perturbavam toda a navegação. Em terra, escapavam de emboscadas e armadilhas e procuravam a todo momento furar o cerco para conseguir suprimentos para o Recife". A situação se complicava cada vez mais, pois a guerra se tornava muito dispendiosa, acumulando prejuízos. Os holandeses ainda enfrentavam uma guerra na Europa contra a Inglaterra. Terminaram por assinar a rendição, na campina da Taborda, em 26 de janeiro de 1654. No dia seguinte, os vencedores invadiram o Recife, comandados por João Fernandes Vieira.

A vitória não significou a recuperação da economia colonial açucareira. Portugal perdeu a ajuda dos holandeses, antes seus parceiros. O preço do açúcar sofreu um forte abalo. Os holandeses, por sua vez, aproveitaram-se do que aprenderam no Brasil e investiram nas Antilhas. A capitania de Pernambuco conheceu um período de profundas dificuldades econômicas. Muitos senhores de engenho faliram e Olinda precisava ser praticamente reconstruída. A restauração pernambucana é considerada por muitos historiadores como marco para o início de formação de um sentimento de identidade entre os colonos. A presença holandesa alterou a maneira de viver da época. O Recife ganhou espaço político e econômico.

Outros aspectos merecem ser lembrados. No período de ocupação holandesa, sobretudo com a intensificação dos conflitos, aumentaram as fugas de escravos e com isso fortaleceram-se os quilombos, com destaque para o dos Palmares. Foram comuns, também, os casamentos unindo luso-brasileiros a holandeses, dos quais o mais famoso foi o de Ana Paes, senhora do engenho de Casa Forte. Assim, entre perdas e ganhos, os tempos históricos vão sendo vividos.

GUERRA DOS MASCATES

A guerra do Recife e Olinda

Ocupando o espaço deixado pelos holandeses, comerciantes vindos de Portugal, estabelecem-se no Recife. A prosperidade do povoado, impulsionada pela ascensão econômica dos portugueses, chamados com desprezo de mascates, é vista com desconfiança pelos olindenses - senhores de engenho arruinados pelas dívidas.

O conflito de interesses políticos e econômicos entre a nobreza açucareira pernambucana e os novos burgueses, vindos de Portugal, é o ingrediente principal da briga entre recifenses e olindenses: a Guerra dos Mascates. Mas a revolta não conseguiu conter o crescimento do povoado do Recife, elevado à categoria de vila independente em 1710.

As disputas internas

Houve uma marcante imigração de portugueses para o Brasil com o fim da União Ibérica, desligando Portugal da Espanha. Muitos vieram em busca de riqueza, com objetivos de fixar-se na colônia e nela investir suas economias. Outros, como funcionários da administração colonial, burocratas encarregados de melhorar os lucros da metrópole, ou militares, com a finalidade de manter a ordem ou combater os possíveis invasores. Mudava, portanto, a população colonial e em alguns lugares tornava-se mais densa. É visível o crescimento do Recife na primeira metade do século XVIII. Em 1711, estima-se que 16 mil pessoas moravam no Recife, enquanto em 1745, a população chegava a 25 mil habitantes. Não é de se estranhar o crescimento. O porto mantinha sua importância e o comércio prosperava. Muitos desses portugueses vindos para o Brasil, estabeleceram-se nas terras recifenses, substituindo os holandeses no financiamento da produção do açúcar e no tráfico de escravos.

A riqueza encaminhava-se para outras mãos. Há casos de fortunas feitas com rapidez como a do migrante português Antonio Fernandes de Matos ou de um ex-escravo Luís Cardoso que conseguiu ser admitido como membro da Ordem Terceira de São Francisco. Cardoso fez fortuna no comércio e na agiotagem. Segundo conta o historiador João Alfredo dos Anjos, no livro Tempo dos flamengos e outros tempos, organizado por Manuel Correia de Andrade, "a sua aceitação na ordem não se deu por acaso, mas mediante contribuições e doações em dinheiro ou no abatimento de dívidas de terceiros". Quando Luís Cardoso morreu, em 1724, analisando seu testamento, verifica-se que ele havia se tornado membro das principais irmandades do Recife, em um claro sinal de ascensão e prestígio social. "Foi enterrado no convento de Santo Antônio com o hábito de São Franscisco e ao seu enterro acorreram as irmandades das quais era membro: a do Santíssimo Sacramento, a de Nossa Senhora do Rosário, a de Santa Luzia, de Santa Catarina e a do Bom Jesus das Portas", descreve João Alfredo.

O preço do açúcar caía rapidamente. Uma arroba de açúcar custava, em 1701, 2000 réis, para 10 anos depois custar apenas 1190 réis. A queda no preço dificultava a vida dos produtores, tornando-os cada vez mais dependentes de empréstimos. Recorriam aos comerciantes lusos, que se iam firmando no controle da economia. Ao mesmo tempo, criava-se uma rivalidade que levaria a confrontos violentos. Os senhores de engenhos consideravam-se a aristocracia da terra, os heróis da restauração pernambucana, e tinham grande desprezo pelos comerciantes. Esses eram chamados de mascates, comparados aos mercadores ambulantes que vendiam objetos sem grande valor. Por sua vez, os comerciantes respondiam chamando a "nobreza do açúcar" de pés-rapados.

Cada um, no seu lugar, alimentava insatisfações e rivalidades. A prosperidade do Recife incomodava Olinda. O Recife expandia-se, com especuladores imobiliários aproveitando-se para fazer fortuna. Mas nem tudo se resolvia pelos privilégios econômicos. Havia questões político-administrativas que acirravam as disputas. O Recife estava localizado nos limites territoriais de Olinda, portanto dependia das suas decisões. Não tinha autonomia diante da Câmara Municipal, órgão controlado pelos senhores de engenho. Prevalecia, no caso, a força política dos grandes proprietários de terra, que mantinham seus privilégios mesmo que financeiramente arruinados. Junte-se a isso o controle sobre as tropas militares e os órgãos judiciários. Ficava a pergunta: valia mais a vaidade ou a riqueza?

O confronto

Na análise do historiador Luiz Geraldo da Silva, a descoberta do ouro em Minas Gerais beneficiou os comerciantes estabelecidos no Recife. Segundo ele, "eram os comerciantes de Pernambuco e da Bahia que levavam às minas os tecidos e o gado de que a população mineira necessitava". Os comerciantes acumulavam dividendos, o movimento do porto se intensificava. Silva acrescenta que "como sinal desse enriquecimento, três importantes conventos foram construídos no Recife nessa época: o dos carmelitas, o dos jesuítas e o dos padres do oratório. Os mascates constituíram ainda a Ordem Terceira do Carmo, com sua luxuosa capela, na qual os senhores de engenho não podiam entrar". A disputa ganhava espaços, criava tensões. Restava saber como a Coroa se definia, a quem seus atos administrativos mais favorecia.

O Governo de Portugal manifestava nos seus atos simpatia pelo Recife, dando ânimo à população para lutar pela independência. Mesmo arruinados, os senhores de engenho resistiam e ficaram indignados com as medidas tomadas em favor do Recife. O governo de Sebastião Castro e Caldas contribuiu para aumentar as rivalidades, já acirradas com a carta régia do rei de Portugal, D. João V, que elevava o Recife à condição de vila. Ordenou que se levantasse um pelourinho em fevereiro de 1710, elevando o Recife à categoria de vila independente, com um governo municipal instalado. A revolta dos olindenses foi grande. O governador sofreu um atentado, mas manteve suas decisões, reprimindo quem as descumprisse.

Festas e eleições aconteceram na nova vila. Os senhores olindenses decidiram-se pela guerra, pois suas manobras políticas não tiveram sucesso. Conduziram suas tropas em direção ao Recife avançando com facilidade. O governador Sebastião Castro e Caldas enviou o padre Manuel dos Santos para negociar com os rebeldes. Não conseguiu demovê-los. Sem ter tropas para se defender, o governador refugiou-se na Bahia em 7 de novembro de 1710, dois dias antes do Recife ser invadido por cerca de 1.100 homens. O pelourinho, símbolo do poder municipal, foi derrubado. O cargo de governador terminou sendo assumido pelo bispo da diocese de Olinda e Recife, Dom Manuel Álvares da Costa, no dia 15 de novembro de 1710. Os olindenses voltavam a dar as ordens, alimentando mais ainda seu orgulho de senhores da capitania, com alguns dispostos a confrontar-se com Portugal.

A reação

O bispo Dom Manuel cumpriu as reivindicações do grupo político olindense, no qual se destacava a figura de Bernardo Vieira de Melo, que teria defendido a idéia de independência, sugerindo libertar Pernambuco do jugo da Coroa portuguesa. Na análise do historiador Artur Cézar F. Reis "Ter-se-iam pronunciado pela sugestão de Bernardo Vieira de Melo, segundo se depreende dos cronistas e da documentação pertinente, Antônio de Lima Barbosa, Manuel de Melo Bezerra Cavalcanti, André Dias de Figueiredo, José Tavares de Holanda, João de Barros Rêgo, Leonardo Bezerra Cavalcanti e Pedro Ribeiro da Silva". Mas a reação não demorou. Os comerciantes articularam-se, conseguiram uma expressiva quantidade de armas e mantimentos e foram à luta. Os recifenses não queriam retrocesso, não se conformavam em ser subordinados aos olindenses.

A dificuldade em conseguir tropas foi superada com a contratação de soldados na Paraíba, em Goiana, em Una. Delas faziam parte escravos, ex-escravos e índios. Eram remunerados pelo trabalho, costume muito comum na época. Os combates começaram em 18 de junho de 1711. O bispo Manuel da Costa foi preso no mesmo dia, mas terminou fugindo e organizou um cerco militar ao Recife, mantendo sua fidelidade a Olinda. Os combates se sucederam em várias localidades, sem que houvesse uma definição. Foi na estância da Boa Vista, onde aconteceu o confronto mais acirrado. O desgaste era grande, até que houve um cessar fogo, mantido com a chegada do novo governador Félix José Machado de Mendonça, muito bem recebido pela população recifense. Ele tomou uma medida que esvaziava, ainda mais, a continuação do conflito, anunciando o perdão geral para todos os envolvidos na guerra, na qual morreram 154 pessoas. Parecia conciliador.

No entanto, as tensões não cessaram. Havia muita desconfiança dos olindenses em relação à conduta de Félix Mendonça. Eles tinham razão. O governador passou a hostilizar os olindenses, descumprindo as promessas iniciais. Foi vítima de um atentado, do qual escapou e lhe deu motivos para manter a perseguição. Instalou-se um tribunal em outubro de 1711, com três juízes vindos de Portugal. O alvo era punir os líderes do movimento, sobretudo os que haviam defendido a idéia de se libertar da metrópole. Os réus condenados tiveram seus bens confiscados, e foram enviados a Portugal para ser julgados pelo Tribunal da Inconfidência. Eram acusados de desobedecer ao rei, portanto infiéis e perigosos para os planos dos colonizadores.

Segundo o historiador Luiz Geraldo da Silva, "foram presas 160 pessoas, noventa no Recife, em Olinda e em outras cidades do interior. Dessas 90 pessoas, 11 foram enviadas para Lisboa, 24 soltas sob fiança e 55 tiveram o perdão geral. As demais, como não tiveram grande participação na guerra foram logo soltas". Além disso, conta o historiador, "cerca de quatrocentos olindenses se refugiaram nas matas durante quase três anos temendo represálias". O rigor das punições servia de exemplo para quem pensasse em desafiar o governo português. O Recife terminou sendo olhado com simpatia pela administração lusitana. Olinda não retomava o prestígio dos primeiros tempos da colonização, enquanto o Recife expandia-se.

A elite política recifense formava-se nesse embate, suas lutas no século XVIII foram importantes para definir estratégias posteriores de resistência contra a colonização.

O Recife do Século XVIII

Na segunda metade do século XVIII, descobriu-se um outro Capibaribe, aquele dos deliciosos banhos, banhos inclusive com poderes medicinais. Assim, novas áreas de ocupação atraíram a população do Recife: as margens do Capibaribe que, com o seu parceiro, o Beberibe, tantos benefícios ofereciam e, atualmente, se apresentam tão maltratados. Não havia ainda o hábito de ir para as praias e tomar banho de mar. Nas praias, próximas aos sobrados, despejavam-se o lixo das casas e até mesmo animais e escravos mortos. O rio tinha grande poder de atração. Além dos banhos, por ele se faziam mudanças, se passeava de canoa ou de botes, aconteciam as românticas serenatas, costumes que se consolidam no século XIX. Segundo Gilberto Freyre: "Muita casa-grande de sítio, muito sobrado de azulejo, no Recife todo casario ilustre da Madalena - que hoje dá as costas para o rio - foi edificado com a frente para a água". O Recife ganhou outros contornos que se iam definindo, criando arrabaldes que se constituem em alternativas, para quem estava exausto dos burburinhos do urbano. Evaldo Cabral de Mello registra que "o aparecimento dos subúrbios ao longo do Capibaribe não se fez de maneira geograficamente contínua, mas ganglionar". Acrescenta ainda que "a dispersão com que surgem os subúrbios parece estar ligada à disposição dos proprietários dos antigos engenhos de se desfazerem de suas terras". O crescimento territorial do Recife tinha, então, uma relação direta com as dificuldades passadas pelos senhores de engenho, obrigados a alugar partes de suas terras. Além da fundação do arraial do Poço da Panela em 1758 e da construção da capela dedicada a Nossa Senhora da Saúde, depois de 1772, surgiria também a povoação do Caxangá, juntamente com a Várzea, outro marco da expansão do Recife. Sítios e chácaras indicavam novas áreas para descanso e lazer, mudanças nos hábitos, distanciamento do porto.

O Recife, considerado mais central, também passava por mudanças. Em 1788, o governador Tomás José de Melo instalou um mercado na conhecida Praça do Polé, onde se encontra localizada hoje a famosa Praça da Independência, ponto de muitas conversas e encontros dos mais diversos, sendo construídas sessenta e duas casinhas que rendiam, para a municipalidade, 900$000 por ano. Lá se realizavam feiras movimentadas. O espaço hoje ocupado pelo bairro da Boa Vista, com suas ruas repletas de carros, pessoas e atividades comerciais das mais variadas, ganhou também um bom impulso no século XVIII, como destaca o box ao lado. As procissões e as festividades religiosas faziam parte ativa da vida social do Recife, com a participação ativa das irmandades religiosas, poderosas e definidoras do prestígio dos seus membros, recebendo doações expressivas como no caso citado de Luís Cardoso. Havia uma expressiva quantidade de músicos atuando, dedicados à música sacra. Destaca Padre Jaime Diniz, no livro Um tempo do Recife que "órgãos importados de Portugal ou aqui mesmo construídos não faltaram em nossas igrejas, nas ricas e suntuosas como nas mais modestas capelas. As igrejas ou capelas que não chegaram a possuir tal instrumento - e devem ter sido pouquíssimas - ou que os possuíam mudos, por mutilados ou estragados, alugavam ou tomavam por empréstimo às igrejas vizinhas, para que tão útil e necessário órgão (o tubular, o verdadeiro já se vê) trouxesse um toque de brilho às suas principais festas, além de proporcionar um apoio muitas vezes insubstituível para as vozes humanas". A vida social do Recife não se resumia, portanto, aos negócios no porto ou aos encontros nos sobrados. AS VISÕES DE LIBERDADEO Recife das revoluçõesNas primeiras décadas do século XIX, o Recife foi marcado por revoltas inspiradas no ideário liberal importado da Europa. Comerciantes, aristocratas e padres se uniram para exigir mais autonomia para a colônia. Era o "Recife das revoluções libertárias", evocado pelo poeta Manuel Bandeira. O movimento das elites, entretanto, evitava questões como o fim da escravidão e dispensava a participação popular, temendo a generalização da revolta.As idéias liberaisA inquietação política no Recife, nas primeiras décadas do século XIX, tem profundas conexões com as mudanças que aconteciam desde o século XVIII, século das grandes revoluções burguesas. Na Inglaterra, a Revolução Industrial modificou o esquema de produção, corroeu os laços da economia com o passado marcado pelo comércio e a agricultura. Era uma crítica deliberada ao mercantilismo, nas teorias dos chamados economistas clássicos ingleses, destacando-se Adam Smith com a sua obra A riqueza das nações. Para ele, o trabalho produtivo era a grande fonte de riqueza social. Aliás, desde o século XVII, os pensadores elaboravam as chamadas idéias liberais que colocavam em discussão a questão da liberdade e da igualdade. John Locke, Voltaire, Montesquieu, Rousseau anunciavam novos tempos e novos pactos sociais. A Revolução Francesa (1789) inspirou-se nas idéias liberais para derrubar a monarquia absolutista.As idéias liberais espalharam-se pelo mundo ocidental. As colônias inglesas da América do Norte conseguiram sua autonomia política, já em 1776, deixando de fazer parte do império britânico. Não parecia haver mais espaço para a continuidade do sistema colonial que tanto explorava e oprimia os povos da América. O desejo de romper com a metrópole também se fez presente em terras brasileiras. Nas Minas Gerais, a Inconfidência Mineira (1789) revelou planos que ameaçavam o domínio português. Na Bahia, a Revolta dos Alfaiates (1798) mobilizou grupos mais desfavorecidos economicamente na busca de liberdade e igualdade social. No Recife, as idéias liberais circulavam, faziam parte das discussões dos intelectuais, e fascinavam os mais rebeldes. Além disso, a vinda da corte portuguesa para o Brasil, fugindo do exército de Napoleão e chegando aqui, em 1808, provocou mudanças expressivas. Os portos brasileiros foram abertos às nações amigas, favorecendo a Inglaterra com tarifas alfandegárias diferenciadas, e o Rio de Janeiro tornou-se a capital do império português. Portugal tinha fortes ligações de dependência com a Inglaterra, a grande nação imperialista da época. Sonhos de liberdade alimentavam corações e mentes, buscavam concretizar-se no cotidiano, derrubando a secular dominação colonial. A agitação intelectualA economia passava por uma fase de recuperação no final do século XVIII. Não era o açúcar que nos salvava, mas a produção de algodão que se exportava para o mercado europeu. O Recife beneficiou-se com essa prosperidade e sua população já chegava a 25 mil habitantes, bem maior do que a de Olinda, com 4 mil habitantes. O Seminário de Olinda, instalado em fevereiro de 1801 pelo bispo Azeredo Coutinho, contribuiu para a efervescência das idéias liberais vindas da Europa. Muitos participantes dos movimentos de rebeldia foram alunos ou professores do seminário.Além disso, a franco-maçonaria, sociedade secreta, atuava na divulgação e defesa das idéias liberais. Muitos membros da elite colonial freqüentavam as reuniões das lojas ou oficinas maçônicas. Havia, portanto, vários locais onde as idéias de autonomia circulavam, sendo assunto que atraía os mais interessados em acabar com o domínio colonial. Não se pode esquecer a heterogeneidade desses grupos, deles fazendo parte comerciantes, padres, membros da aristocracia. A sociedade preocupava-se em resolver seus problemas que tinham na reorganização política um grande foco de discussão. O Brasil era uma colônia, com uma população negra bastante expressiva, sobretudo nas regiões onde a cana-de-açúcar predominava, e isso preocupava os dominantes que ficaram amedrontados com a revolta acontecida na ilha do Haiti, na qual os negros expulsaram os brancos.O Recife, como centro urbano, foi cenário privilegiado dessas questões, mas foram os senhores da aristocracia rural pernambucana que articularam a chamada Conspiração dos Suassuna, no início do século XIX. Ela foi denunciada, antes que houvesse qualquer movimento de tropas. O governo agiu com rapidez, prendendo suas lideranças principais, os irmãos Albuquerque Cavalcanti. Os prisioneiros foram interrogados, testemunhas, ouvidas. Conseguiram ser absolvidos. Algumas pessoas envolvidas no processo parecem não ter se empenhado em comprovar a culpa dos acusados. Era o que circulava. Continuaram, porém, as conspirações.Os cenários do cotidianoMuitos viajantes passaram pelo Recife, no século XIX. Alguns, como Henry Koster e L. F. Tollenare, deixaram descrições que nos servem até hoje para conhecer as experiências cotidianas dos habitantes da cidade naquele período. Quem vê o Recife no presente, termina por esquecer o que se esconde nas memórias das suas ruas mais antigas. Há espaços que concentram lembranças que as reformas urbanas não conseguem apagar, desde que não se perca de vista que a história é esse diálogo constante dos tempos inventados pelos homens. A história das cidades está inscrita na sua paisagem e nas suas ruínas, no silêncio aparente das construções mais antigas e no murmurar das testemunhas que, não só viveram na cidade, mas quiseram conservá-la através dos seus escritos.Seus olhares estão presentes em muitas páginas de importantes obras historiográficas sobre o Recife. Eles descrevem os hábitos e os costumes da época. Os hábitos femininos, por exemplo, deixavam os estrangeiros curiosos. As mulheres pouco saíam de casa. Iam para a missa ou passeavam com a família, com discrição. As damas mais ricas, quando faziam visitas, eram conduzidas em cadeirinhas ou palanquins transportados por escravos, por ruas estreitas e cheias de buracos. Portanto o recato feminino era grande. Quando queriam fazer compras mandavam escravos menores, os moleques, fazê-las ou também levar recados para os seus namorados ou pretendentes.O divertimento público eram as festas religiosas, embora algumas casas organizassem reuniões para conversas e danças. A iluminação das ruas principais era feita com lampiões de azeite. As notícias circulavam nas conversas. Alguns jornais circulavam, sem conseguirem firmar-se por muito tempo. Em 1825, apareceu o Diario de Pernambuco que se mantém até hoje em circulação. Poucos sabiam ler. Por outro lado, havia cenas dantescas dos escravos sendo desembarcados para serem vendidos nas ruas numa situação de miséria e degradação. Eram examinados como mercadorias pelos seus compradores, reclamando dos seus defeitos, negociando seu preço, como o de um objeto. A escravidão era uma marca constante no cotidiano da colônia.O Recife era minúsculo se comparado à cidade atual. Sigamos as descrições feitas por Tollenare em 1817. O chamado bairro da península, o do Recife, era o mais antigo, com casas de dois a quatro andares. Suas ruas eram ocupadas por negros com seu trabalho de carregar fardos e negociantes que, "trajados à européia, se reúnem numa pequena praça defronte dum café, onde conversam tranqüilamente". As lojas tinham mercadorias diversas vindas da Inglaterra e da Índia, enquanto negras vendiam, com seus pregões, lenços e fazendas em cestos que carregavam na cabeça.O bairro da ilha de Santo Antônio tinha ruas um pouco mais largas. Lá existiam armazéns onde se praticava o comércio a retalho e lojas de ourives. Tollenare exalta a beleza das igrejas e dos conventos, num bairro de casas baixas. Segundo ele "quando se lança o olhar no interior dessas casas baixas de Santo Antônio e Boa Vista, vêem-se mulheres brasileiras seminuas, acocoradas ou deitadas sobre esteiras. Essas mulheres quase nada deixam a desejar à curiosidade libertina; mas, também nada oferecem de muito sedutor". O bairro da Boa Vista era visto como o mais moderno; ainda Tollenare: "as ruas e as calçadas são ali mais largas, têm algumas casas bonitas habitadas por gente rica, mas que não pertencem ao comércio, porquanto quase todos os negociantes moram no Recife".A busca da autonomiaApesar de todas as instabilidades econômicas, Pernambuco continuava sendo uma região muito explorada pela coroa portuguesa. A carga de impostos sobre os grandes proprietários de terra era muito grande. Isso os deixava insatisfeitos, estimulando a busca de meios para se libertar do jugo português. Além dos gastos com tributos, eles deviam aos comerciantes portugueses que controlavam o comércio. As idéias liberais atraíam, portanto, os descontentes, pois defendiam o livre comércio e o fim do sistema de monopólios. As conspirações aumentavam. Reuniões secretas aconteciam, com planos para concretizar a rebelião.O antilusitanismo colaborava para acirrar os ânimos. Alguns portugueses, preocupados com a possibilidade de uma rebelião, denunciaram os líderes do movimento. O governador de Pernambuco, no período de 1804 a 1817, Caetano Pinto de Miranda Montenegro autorizou a prisão de alguns conspiradores em março de 1817. A atitude do governador precipitou o movimento. Conta Manuel Correia de Andrade, em A Revolução Pernambucana de 1817, que o brigadeiro Barbosa de Castro resolveu prender pessoalmente os oficiais denunciados. Houve reações. "O capitão José de Barros Lima, o Leão Coroado, reagiu à prisão e matou o brigadeiro. Imediatamente, os grupos rebelados tomaram o quartel e saíram às ruas, fazendo recuar os reforços militares que vinham do palácio. Os revoltosos levaram a melhor e ocuparam os bairros de Santo Antônio e do Recife, no centro da cidade". Era o dia 6 de março de 1817.Os rebeldes organizaram um governo provisório, baseado no modelo republicano do Diretório da Revolução Francesa. Entre as lideranças do movimento destacavam-se Domingos José Martins, rico comerciante, José Inácio Ribeiro de Andrade Lima (Padre Roma), teólogo e bacharel em direito, o padre João Ribeiro Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque (Visconde de Suassuna), proprietário de terra, Antônio Gonçalves da Cruz (Cabugá), comerciante, Miguel de Almeida e Castro, maçon e professor do Seminário de Olinda, entre outros.Era marcante, portanto, o envolvimento da elite e sua vontade política de se libertar do governo português. Não havia interesse em construir um modelo republicano com ativa participação popular. O movimento obteve adesão, em Alagoas, na Paraíba e no Rio Grande do Norte; na capital do Ceará, no entanto, não conseguiu êxito, devido à forte repressão do governo local. Enviaram também emissários para os Estados Unidos, Buenos Aires e Inglaterra. Não conseguiram o apoio efetivo que esperavam.Faltou ao movimento uma maior adesão popular e uma melhor organização militar. Muitos senhores de engenho temiam que houvesse uma radicalização, sobretudo com relação à questão da escravidão. Não queriam perder seus escravos, pois isso implicaria enfrentar uma situação praticamente falimentar. Alguns indecisos, inicialmente, terminaram por aderir ao governo português quando começou a repressão. Os comerciantes também não se empolgaram com os ideais dos rebeldes. Assim, tornou-se difícil manter o controle da situação e a coroa portuguesa partiu para desmobilizar o movimento. O conde dos Arcos, governador da Bahia, foi encarregado de organizar a repressão.Os portos pernambucanos foram bloqueados, tropas enviadas pelo governo para invadir o Recife. Boa parte da população fugiu. Os rebeldes tentaram se utilizar da guerrilha para enfrentar as tropas do governo. Não conseguiram êxito. Em 19 de maio de 1817 houve a capitulação. A punição aos rebeldes foi violenta. Os líderes mais atuantes foram condenados à morte. O novo governador, general Luís do Rego, comandou com eficácia o desmonte do movimento. As execuções dos condenados ocorriam com rituais marcados por uma violência exemplar. Muitos prisioneiros foram transferidos para a Bahia. O movimento durara 74 dias, mas sua derrota não significou o fim das insatisfações, nem tampouco o recuo definitivo das idéias de autonomia.A Confederação do EquadorAs tensões políticas tinham-se agravado com a volta de D. João VI a Portugal, devido a exigências feitas pela Revolução Constitucionalista do Porto de 1820, importante movimento de reestruturação política das relações entre a metrópole e as suas colônias. Sua volta significou perda de prestígio político para o Brasil. Apesar de ser concedida a anistia política aos presos da Revolução de 1817, muitos deles recuperaram a situação que tinham anteriormente. Permaneciam as desconfianças, sobretudo com relação ao governador Luís do Rego. Novos conflitos aconteceram em julho de 1821, que resultaram na prisão de várias pessoas, 42 delas enviadas para Lisboa. Isso não intimidou os rebeldes. Tropas, vindas de Goiana e comandadas pelos antigos revolucionários de 1817, cercaram o Recife. Houve a chamada Convenção de Beberibe, em outubro de 1821, sendo eleita depois uma Junta de Governo, presidida pelo rico comerciante Gervásio Pires, que foi preso na Bahia, por ordem do governo central, preocupado com as divergências existentes.A independência do Brasil, em 1822, não resolveu os impasses políticos. O governo de D. Pedro I era autoritário. O encaminhamento dado à votação da constituição não agradou aos mais liberais. Os protestos levaram o imperador a decretar a dissolução da Assembléia Constituinte e a outorgar a constituição em 1824, com o poder centralizado, voto censitário e manutenção da escravidão. Em Pernambuco, a resistência ao imperador era grande. Os liberais mais radicais queriam uma república federativa, não se conformavam com a concentração de poderes. Dois jornais se destacavam na crítica ao imperador: Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco e o Typhis Pernambucano. Dois polêmicos liberais escreviam artigos de protestos bem fundamentados. Eram Cipriano Barata, participante da Revolta dos Alfaiates no século XVIII na Bahia, e Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, frei carmelita de marcante formação intelectual .Celebrou-se um acordo para se evitar o choque militar, em 5 de outubro de 1821.Não constituiu surpresa, portanto, que novo movimento acontecesse em 1824, a chamada Confederação do Equador. D. Pedro, com a nomeação de Francisco Pais Barreto e para substituir Manuel Paes de Andrade, acirrou mais ainda os ânimos. A nomeação não foi aceita pelas comarcas de Olinda e do Recife. Paes de Andrade, que havia participado do movimento de 1817, proclamou, em 2 de julho de 1824, a Confederação do Equador. Como em 1817, buscaram adesões para fortalecer o movimento diante do governo central. Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba mostraram-se solidários. A constituição da Colômbia, de natureza republicana, foi escolhida como modelo. Havia grupos que radicalizaram, exigindo o fim da escravidão, formando brigadas populares, compostas de elementos da população livre das mais diversas origens, inclusive mulatos e pretos. Essas brigadas não eram bem vistas pela aristocracia rural.O Imperador não hesitou. Mandou tropas, contratou soldados mercenários com a ajuda de empréstimos conseguidos no exterior. As tropas do governo contaram com a ajuda de forças locais lideradas por Francisco Pais Barreto. A luta se estendeu até o mês de novembro, quando os rebeldes se renderam. A repressão foi exemplar, com a condenação e morte dos principais líderes, entre eles, Frei Caneca que acabou sendo fuzilado por não haver ninguém que quisesse ser seu carrasco. Mais uma vez o Recife foi cenário de lutas pela autonomia política, em nome dos ideais consagrados pela Revolução Francesa. Construía-se um imaginário político marcado pela inquietação e pela resistência ao autoritarismo, presentes na Confederação do Equador, quando as brigadas populares fizeram contraponto às ações moderadas e conciliatórias de boa parte das elites. O RECIFE NO SÉCULO XIXA capital de PernambucoA história do Recife no século XIX está marcada pela luta política. A Revolução de 1817, a Confederação do Equador, de 1824, a Revolução Praieira, de 1848. Criou-se um imaginário de lutas e de rebeldias. O Recife convivia com inquietações constantes, não se subordinava ao poder central, desafiava as ordens vindas do Rio de Janeiro. Não era mais uma vila, nem estava subordinado a Olinda. Tornou-se cidade em 1823 e capital de Pernambuco em 1827. O Recife conseguiu a autonomia pela qual tanto lutava.Tudo isso produziu, também, suas mistificações, encobriu outros momentos e experiências, ficando a história reduzida à história política, a cidade formando uma identidade heróica que até hoje faz parte da sua memória. Mas um outro olhar sobre a cidade e sua história poderá nos revelar como seu espaço foi construído, como a sociedade foi tecendo o seu cotidiano. As rebeldias tinham, efetivamente, fortes relações com a modernidade, com seu projeto civilizatório que se ampliava e conquistava sobretudo a cultura ocidental. As mudanças não se davam, apenas, no mundo das idéias ou nos anseios de liberdade política.Os espaços urbanos ganhavam importância, os costumes sociais exigiam novos comportamentos, a burguesia colocava claramente suas cartas na mesa. Queria fazer o mundo à sua imagem e semelhança, o grande mundo das mercadorias e do liberalismo. Os povos da América, que conseguiram expulsar os antigos colonizadores, passavam a conviver com uma dominação mais sofisticada, com certeza mais sedutora e sutil.Os sinais de modernizaçãoA época que se inaugurava exigia uma convivência, nem sempre equilibrada, entre o antigo e o moderno. A tradição era questionada, muitas vezes dissimulada. Existiam inúmeros contrapontos. O Brasil tinha feito sua independência política com clara influência das idéias liberais, mas não havia acabado com a escravidão. Era uma questão difícil de ser enfrentada, pois ameaçava as elites. Já vimos como os movimentos ditos liberais de 1817 e 1824 não foram muito explícitos com relação ao fim da escravidão ou mesmo à participação de negros na sua organização. A modernidade apresentava suas contradições, mais visíveis aqui, com a confusão entre liberais e conservadores nas suas práticas e escolhas políticas.De qualquer maneira, tudo isso significava uma experiência histórica que se modelava nos chamados "estrangeirismos". Entre polêmicas, recusas, encantamentos, a modernização chegava ao Recife. Uma administração pública ficou marcada por investir na importação do moderno, a do presidente da província de Pernambuco, Francisco do Rego Barros (1837-1844), depois Conde da Boa Vista, um político ligado ao Partido Conservador. Eis aí um registro interessante: um conservador em busca de mudanças na sua urbe, ainda tão provinciana, se comparada às grandes capitais européias da época. O modelo era Paris, cidade emblemática do mundo ocidental, onde Rego Barros estudou. Ele não trouxe apenas as idéias, mas trabalhadores e técnicos franceses.A paisagem mudava. Construíram-se estradas, a Ponte Pênsil de Caxangá, o Teatro de Santa Isabel. Fez-se uma reforma total na Repartição das Obras Públicas, além de um planejamento para o fornecimento de água potável ao Recife. Não havia no Recife, nem saneamento, nem água encanada, nem luz pública. O governo de Rego Barros não conseguiu concretizar todos os seus planos, mas efetivamente deu novos ares ao Recife, lembrou os tempos de Nassau. As ruas foram numeradas, seus nomes definidos, instalada luz pública a gás, padronização de prédios dentro dos princípios modernizadores europeus.A influência francesaAs reformas e os seus francesismos não tiveram aceitação unânime. Alguns resultados dessas mudanças não agradavam aos mais nacionalistas. Parecia uma outra colonização. Novas maneiras de comer, de vestir, de comportar-se em público quebravam tradições. Além disso, não vieram apenas engenheiros, mas profissionais das mais diversas áreas. Artistas, modistas, médicos, cozinheiros franceses, aqui se estabeleceram em busca de uma melhor sobrevivência. Segundo o historiador Flávio Guerra, no artigo O Recife e o Conde da Boa Vista, "as ruas centrais iam-se enchendo de casas comerciais com nomes franceses, fato que se prolongaria aos começos deste século. Até a medicação era importada quase toda da França, abundando o Elixir de Guilhé; o Remédio de Le Roy; as Pastilhas de Vichy; as Águas de Vichy; a Aguardente da França; a Pasta Peitoral de Mon de Vean; o Elixir Anti-Venéreo do doutor Cristiansen, da faculdade de Paris, e assim por diante". Expressões da língua francesa eram usadas pela elite. O alfaiate Chometon fez sucesso confeccionando roupas para homens e mulheres. Os cabeleireiros franceses substituíam os tradicionais mestres-barbeiros e as parteiras francesas montavam seus consultórios nas ruas centrais da cidade.A vinda de Louis Vauthier, chefiando uma missão de engenheiros, trouxe efetivamente mudanças significativas no setor das obras públicas, além da circulação de idéias socialistas através da revista Progresso. Destacam-se, com certeza, as construções do Teatro de Santa Isabel, nos moldes do estilo neoclássico europeu, e do palácio presidencial, atualmente conhecido como Palácio do Campo das Princesas. Além dos engenheiros franceses, operários alemães, como pedreiros, marceneiros, também foram contratados para trabalhar nas obras públicas. Rego Barros foi acusado de ser perdulário, gastar sem medida o dinheiro público. Portanto, ao deixar o governo em 1844, já existiam fortes críticas à sua conduta administrativa. Parte dos trabalhadores estrangeiros continuou no Recife, exercendo seus ofícios. Posteriormente, Rego Barros foi senador, vindo a falecer em outubro de 1870. O Recife conviveu com os ares da modernização que mudaram a paisagem e os hábitos. Não se pode esquecer que, em 1839, aportava no Recife, pela primeira vez, uma embarcação a vapor. O que isso significava? Mais um triunfo da modernização, pois a embarcação a vapor desenvolvia uma velocidade quatro a cinco vezes superior à de um veleiro. O Recife estreitava, mais ainda, seus laços com o mundo exterior.A Revolução PraieiraOs chamados progressos da modernização não conseguiram esconder as divergências políticas. O governo de Rego Barros tinha seus combativos adversários; a tradição de lutas políticas marcava o Recife através da insatisfação de alguns grupos com medidas adotadas pelo poder central. Uma parte do Partido Liberal formou o Partido Nacional de Pernambuco que ficou conhecido como Partido da Praia ou Partido Praieiro, pois seu jornal, o Diario Novo, funcionava na Rua da Praia. O jornal era nacionalista, portanto, criticava a vinda de trabalhadores estrangeiros, fazendo acusações a Rego Barros e aos comerciantes portugueses por empregarem apenas balconistas também portugueses. Crescia um sentimento antilusitano. Os praieiros sentiram-se, politicamente, beneficiados com a queda do gabinete conservador, em 1844, e buscaram conseguir mais espaço de poder.O novo presidente da província de Pernambuco, Joaquim Marcelino de Brito, procurou evitar o acirramento das disputas. Instalou-se, no entanto, um clima de guerra. Os praieiros não desistiam de denunciar os conservadores, sobretudo os partidários de Rego Barros. Joaquim Marcelino foi substituído por Tomás Xavier Garcia de Almeida. A eleição de 1845, para o Senado, depois de muitas polêmicas, terminou sendo vencida por Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, candidato do Partido da Praia que ficou ainda mais fortalecido com a nomeação de Antônio Pinto Chichorro da Gama para presidente da província de Pernambuco. O Partido tinha uma composição heterogênea, dele fazendo parte o monsenhor Muniz Tavares, o jornalista Luís Inácio Ribeiro Roma, o militar de carreira José Inácio de Abreu e Lima, o republicano radical Pedro Ivo, entre tantos outros.Beneficiados pela administração de Chichorro da Gama, os praieiros perseguiram os conservadores de todas as maneiras, não lhes dando trégua. Conseguiram o controle da administração, venceram as disputas para o Senado em 1846, mas suas vitórias não apaziguaram os ânimos. Tornaram-se comuns os tumultos de rua, como o chamado mata-marinheiro, nos quais a população mais pobre protestava contra os comerciantes portugueses, chegando à agressão física e ao apedrejamento das lojas. Os comerciantes eram responsabilizados pelo desemprego, pela fome e pela carestia. Parecia não haver como conciliar os interesses. A própria instabilidade provocada pela política do governo ajudava no acirramento das rivalidades. A saída de Chichorro da Gama deixou os praieiros em desvantagem, pois seu sucessor, Souza Teixeira, com apenas seis dias de governo, demitiu quinhentas pessoas, desmontando o esquema de poder dos praieiros. Os seus substitutos, Vicente Pires da Mota e Herculano Pena, enfraqueceram mais ainda os praieiros. Não havia possibilidade de reconciliação. Criou-se o cenário para a luta armada, contando os praieiros com apoio popular.A revolta iniciou-se em 7 de novembro de 1848, alastrando-se por toda a província. O governo imperial ficou preocupado, nomeando Manuel Vieira Tosta para substituir Herculano Pena. Os rebeldes conseguiam adesões, fazendo das matas próximas ao Recife um núcleo militar básico para organização das suas forças. Entre os planos dos rebeldes, havia o de invadir o Recife. Uma vitória poderia lhes dar o controle da situação, já que as tropas do governo continuavam recebendo reforços e perseguiam violentamente aqueles que se mostrassem simpáticos à revolta. O ataque aconteceu na manhã de dois de fevereiro de 1849. As tropas praieiras contavam, aproximadamente, com 1500 homens, divididas em duas grandes colunas. Uma invadiria o Recife pelo norte, a outra pelo sul.As dificuldades foram muitas. Uma, bastante importante: os combatentes praieiros estavam acostumados a lutar no interior, perdiam-se no espaço, para eles labiríntico, de becos e ruas, do Recife. A coluna do norte chegou até o forte das Cinco Pontas e a coluna do sul foi detida na Soledade. Nessa luta, morreu Nunes Machado, uma das lideranças mais ativas do movimento. Tiveram que se retirar, com perdas irrecuperáveis. A sua resistência no interior durou até 1850. Derrotando militarmente os seus opositores, o governo montou um forte esquema de repressão, visando eliminar as atitudes de rebeldia. Era mais um movimento político, tendo o Recife como cenário importante, que fracassava. O sentimento de rebeldia misturava-se à história política da cidade. Muito se falou sobre a Praieira, inclusive do conteúdo socialista das suas propostas. Exageros à parte, o radicalismo dos rebeldes não alcançava esse nível. Houve, efetivamente, uma disputa violenta pelo controle do poder, com idéias de ampliação da cidadania e de nacionalização da economia, mas nada que ameaçasse a ordem social vigente na época.Outras históriasO Recife era, em meados do século XIX, a terceira cidade do Brasil, contando com uma população de cerca de 50.000 habitantes. Convivia com problemas que se arrastavam desde os primeiros tempos da sua história. Apesar de ser uma cidade portuária, precisava com urgência modernizar os equipamentos e as instalações do porto, para agilizar o embarque. Não possuía um sistema de água encanada, nem de esgotos. Segundo o historiador Marcus Carvalho, no livro Liberdade - rotinas e rupturas do escravismo, "o comércio de água devia render um bom dinheiro para os aguadeiros do Recife. Um historiador oitocentista documentou que os negociantes que controlavam o fluxo do Riacho do Prata, no Monteiro, aumentaram extorsivamente o preço do balde nesse período em que a população crescia rapidamente". Os mais ricos organizavam seu abastecimento utilizando-se de escravos com suas canoas. Os canoeiros, ainda segundo Carvalho, tinham prestígio: "todavia para o exercício permanente da função de canoeiro era preciso alguns treinos e especialização. O rio não era uma estrada reta". Existiam possibilidades de encalhe, redemoinhos, manguezal, muita vida vegetal no leito do Capibaribe, sem falar da poluição provocada pelo despejo dos engenhos e, posteriormente, das usinas. A água era, sem dúvida, um bem de grande valor, sobretudo a potável.A vida da cidade continuava concentrada nos seus quatro bairros: o do Recife, o de Santo Antônio, o da Boa Vista e o de São José. O comércio era intenso nos bairros do Recife e de Santo Antônio. No bairro da Boa Vista, construído sobre aterros, havia belas e grandes residências. As condições de higiene eram precárias, agravadas pela falta de saneamento. Muitas epidemias aconteceram na segunda metade do século XIX. Uma de cólera-morbo atingiu o Recife e quase toda a província de Pernambuco, durante sete anos. Além da cólera, epidemias de varíola, sarampo, febre amarela e difteria assustavam a população, mais ainda os estrangeiros que estavam instalados. Não apenas o Recife era vítima desses flagelos. O crescimento rápido das cidades provocou dificuldades em todos os países, daí as grandes campanhas feitas pelo poder público para educar as populações das urbes e o investimento em obras que pudessem minorar as péssimas condições de higiene.O Recife se expandia, os arrabaldes ganhavam novos moradores. A Madalena, o Poço da Panela, Caxangá, Afogados, Várzea, Beberibe juntam-se ao núcleo básico da cidade. O aumento da população e da rede territorial da cidade levou, segundo Manuel Correia de Andrade, "à necessidade de se instalar serviços de transporte coletivo que substituíssem os existentes, que eram muito precários. Em 1867, foi inaugurada pelo Brazilian Street Railway Ltda., a estrada de ferro que ligava o Recife às povoações da Várzea, de Dois Irmãos e de Boa Viagem, com estações espalhadas por numerosos arrabaldes, como a que ainda hoje existe em Ponte d'Uchoa". Houve um empenho para encurtar as distâncias. Em 1870, uma nova estrada de ferro ligava Olinda ao Recife. Os bondes de tração animal passaram a circular pela cidade, servindo à população até o ano de 1914. Os bondes tinham forte presença no cotidiano da cidade e provocavam um espetáculo à parte quando os burros, que os puxavam, resolviam não seguir adiante.A cidade aproximava-se do século XX com novos movimentos políticos que lutavam contra a escravidão e defendiam a instalação da República. Assim, tornava-se, mais uma vez, cenário de inquietações em nome da liberdade e da igualdade. Radicalizam-se os desejos de cidadania. A campanha da Abolição mobilizou intelectuais e políticos, imortalizou-se também nos poemas de Castro Alves denunciando os crimes da escravidão. Aliás, o Recife tinha uma rica vida intelectual, marcada pela participação dos professores e estudantes da Faculdade de Direito, grande centro de formação e divulgação de idéias, onde Tobias Barreto, sergipano, e Sílvio Romero tiveram uma atuação destacada, reunindo em torno de si vários discípulos. Na luta contra a escravidão, a figura de Joaquim Nabuco terminou por ser a mais destacada pela historiografia, mas iniciou-se com as próprias resistências dos escravos. Ela foi longa e cotidiana. Não se pode esquecer, porém, a presença de José Mariano que fundou o Clube do Cupim, em outubro de 1884, dando uma dimensão mais popular, saindo dos limites das disputas nas tribunas.O fim da escravidão foi recebido com festas pela população do Recife. A vitória dos abolicionistas ajudou a desmoronar, mais rapidamente, o Império. Chegava a República, resultado de muitas lutas anteriores. Coube ao Barão de Lucena ser o primeiro governador eleito do Estado de Pernambuco, tendo como vice o desembargador José Antônio Correia da Silva. Continuava a difícil travessia em que a grande questão era conciliar a intenção com o gesto, o discurso da modernidade com uma prática político-social, efetivamente democrática. O antigo e o moderno pareciam estabelecer intermináveis e paradoxais negociações, nas quais o moderno perdia espaços e travestia-se com as máscaras do antigo. Conservar era preciso, mantendo a ordem, com disfarces, às vezes sutis.

A CHEGADA DO SÉCULO XX

O Recife quer ser moderno

Os autores que discutem a modernidade fazem registros diferentes dos seus significados. As dimensões que teve o modernismo nas artes, a agitação cultural do final do século XIX e o início do século XX, a encantadora Belle Époque, mostram a busca de novas linguagens para traduzir as velozes mudanças trazidas pelas novas técnicas. Os tempos modernos ampliaram a diversidade, os projetos de dominação da natureza, as sutilezas que envolvem as relações de poder, as tramas sociais e políticas. Instauraram o culto, às vezes cego, ao progresso.

A idéia de revolucionar o mundo e de aumentar a capacidade do homem de compreender e compreender-se criaram cenários para consolidação de um modo de fazer e representar a História, antes inimaginável. Mas nem tudo foi encanto ou mesmo concretização dos sonhos e das utopias. São os contratempos que nos fazem questionar o que foi a modernidade, até onde o apagar das tradições e a fragmentação da memória contribuíram para a crise do mundo contemporâneo e as tensas relações entre o antigo e o moderno.

O historiador leva para o passado as suas inquietações cotidianas. O passado não é algo petrificado. Quando nos voltamos para a década de 20 no Recife, não podemos fugir da sua especificidade, para que esse diálogo entre os tempos históricos se aprofunde. Aquilo que provocava um forte impacto pela sua novidade, pelos seus ares de moderno, tinha um outro contexto, outras representações, outro imaginário. O novo e o velho eram mais nítidos, a referência à tradição era constante, a memória não estava tão fragmentada, o cotidiano da cidade não sofria tão velozes invasões, convivia com ansiedades bem diferentes das nossas.

Modernismos e modernização

As duas primeiras décadas do século XX conviveram com experiências de modernização importantes, sintonizadas com as mudanças que ocorreriam com a expansão das práticas capitalistas. O Recife não ficou ausente dessas mudanças. O prefeito Eduardo Martins, nomeado pelo governador Sigismundo Gonçalves, em 1904, tomou medidas chamadas disciplinadoras que causaram reações negativas da população, uma delas referente à coleta de lixo. O governo de Dantas Barreto, na década de 10, trouxe proposta de modernização na administração do Estado, uma reorganização do núcleo de poder dominante, antes subordinado às ordens políticas de Rosa e Silva. O seu governo buscou articulações com os trabalhadores urbanos e adotou um discurso salvacionista. Além disso, destacaram-se o plano do engenheiro Saturnino de Brito e as obras feitas para sua concretização, marcantes para a estrutura urbana do Recife.

Na década de 20, o Recife tinha uma importância regional destacada, um setor de serviços significativo, apesar das constantes crises que afetavam a economia pernambucana decorrentes da prevalência dos interesses da agroindústria açucareira. A sua população teve um crescimento expressivo: dos 113 mil habitantes, em 1900, passou para aproximadamente 239 mil, em 1920. Com uma história que atravessava períodos distintos, possuía desenhos urbanos diferenciados, memórias solenes de tantas lutas e dificuldades. Os seus atores celebravam e recordavam feitos e, no imaginário, a forte presença do passado dava margem a múltiplas interpretações.

Além disso, outros sinais indicativos das mudanças que ocorriam na cidade eram os debates sobre a modernização. A reorganização dos serviços de higiene e saúde públicas ganhou uma dinâmica importante, pois mexia com o cotidiano e os costumes da cidade. Envolvia reformas urbanas que provocavam polêmicas na população e teve sua época áurea no governo de Sérgio Loreto (1922-1926). Comandada por Amaury de Medeiros, a reformulação dos serviços de higiene e saúde se propunha a reduzir a caótica situação em que se encontravam, fortalecendo uma ação, considerada pelos seus autores como civilizadora, e marcada pelo saber científico. O doente mental, antes confundido com um marginal comum, passa a ter um tratamento diferenciado. Falava-se em eliminar as feições coloniais e tropicais do Recife. As palavras de ordem eram "urbanizar, civilizar e modernizar".

Houve uma mobilização destacada nesse sentido, incentivando-se a construção de casas populares, a erradicação dos mocambos, os aterros dos mangues, a ampliação dos serviços de luz elétrica, a abertura de ruas e avenidas. Foi da época do governo de Sérgio Loreto o polêmico processo de urbanização da praia de Boa Viagem. A cidade expandia-se para outras áreas, buscando novas formas de lazer, seguindo modelos externos. O noticiário da imprensa da época registrava esses acontecimentos, acompanhando a remodelação do cenário urbano e as perplexidades que trazia. As elites governantes procuravam efetivar esse desejo de modernização, tão presente nas grandes cidades da época, redimensionando os espaços urbanos, multiplicando os lugares possíveis para a expansão do capital. Nem todos aceitavam ou usufruíam dos privilégios das reformas urbanas. Essa é a dinâmica da formação das cidades, seus projetos de modernização não são, apenas, "civilizatórios" ou "urbanísticos", mas expressam conflitos que se desenvolvem nos seus cotidianos, vinculados também a uma luta dos desfavorecidos por melhores condições de vida e trabalho. A cidade é o cenário maior dessas lutas.

Os debates e as reformulações não estavam restritos às reformas urbanas. As repercussões da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922, provocaram os intelectuais pernambucanos da época. Gilberto Freyre estava voltando dos seus estudos nos Estados Unidos e começava a ter uma liderança significativa no meio recifense. Aliás, ele já escrevia artigos polêmicos no Diario de Pernambuco, desde 1918. Em 1925, numa edição especial de comemoração do centenário do mesmo jornal, Freyre coordenou a publicação do Livro do Nordeste, com ensaios nas mais diversas áreas de pesquisa feitos por intelectuais nordestinos. Em 1926, articulou o Congresso Regionalista, "tradicionalista e a seu modo modernista", de onde se afirma haver saído o famoso Manifesto Regionalista, fato amplamente contestado por Joaquim Inojosa. Posteriormente, com Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos, Região e tradição, Gilberto Freyre iria desenvolver uma vasta obra renovadora para a sociologia produzida no Brasil, marcada pela polêmica ou pelo elogio fácil.

Na década de 20, antes de escrever suas obras mais destacadas, Freyre caminhava por trilhas realmente provocativas. Não se aliava àqueles que se encantavam, sem crítica, com a modernidade, ao contrário, colocava limites e censuras aos desejos de modernização, enfatizando o valor das tradições, alimentando um saudosismo dos outros tempos do Recife. Considerava-se, no entanto, a seu modo, um modernista. Estava atualizado com as mudanças ocorridas na Europa e nos Estados Unidos e as divulgava. Freyre deu grande alento ao debate intelectual da época e sua obra tem inegável valor para se entender a formação da sociedade brasileira.

Joaquim Inojosa representou o contraponto. Incorporou-se, sem maiores dúvidas, ao discurso modernista de 1922 e se considerou seu mais fiel representante no Nordeste. Procurou divulgá-lo no Recife e conseguiu muitos adeptos e espaço na imprensa. As suas polêmicas ficaram famosas. Deixou registros amplos da sua trajetória modernista e das discussões com seus opositores, em três volumes, fartamente documentados, intitulados O movimento modernista em Pernambuco. Inojosa manteve vários contatos com os intelectuais de outros Estados ligados ao modernismo, introduzindo suas publicações no meio da intelectualidade recifense. Escreveu em órgãos importantes da imprensa da época como A Pilhéria, o Jornal do Commercio e fundou a revista Mauricéa. Teve no poeta Austro Costa um dos companheiros mais próximos, na sua cruzada modernista.

A modernidade e o modernismo não propiciavam discussões que abrangessem parcela significativa da população. Tratava-se de idéias de circulação restrita, patrimônio das elites intelectuais e políticas. Porém, o processo de modernização dos serviços públicos atingia mais de perto seu cotidiano, provocava reações mais amplas, envolvia mais pessoas. Sinais de que as idéias modernas estavam circulando, penetravam nos costumes enraizados, mexiam com as tradições, estavam presentes na própria imprensa, nos jornais e nas revistas. Alguns desses sinais eram visíveis nas propagandas feitas na imprensa, cujo conteúdo registrava o uso do termo moderno para valorizar o produto. O moderno e o tradicional dialogavam, com seus signos e projetos.

Os movimentos do cotidiano

A década de 20 foi também cenário do ciclo de cinema no Recife, com destaque na produção cinematográfica brasileira. O Recife era conhecido como a Hollywood brasileira. Muitos filmes foram produzidos e alguns tornaram-se clássicos como A filha do advogado, Aitaré da praia, entre outros. O ciclo do Recife chegou a produzir 13 filmes em oitos anos, no período de 1923-31. A maior parte dos envolvidos na elaboração dos filmes estava na faixa de 20 a 25 anos. A partir da fundação da Aurora-Filme, Edson Chagas e Gentil Roiz desencadearam a produção de filmes, no Recife. Contaram os produtores com o entusiasmo de Joaquim Matos, proprietário do cine Royal que transformava cada exibição cinematográfica numa verdadeira festa. Apesar da falência da Aurora-Filme, em 1925, no seu projeto original, o ciclo continuou. Outras figuras se destacaram, como Jota Soares, Pedrosa da Fonseca, Pedro Salgado e tantos outros. O Recife convivia também com salas cinematográficas que exibiam com destaque as produções estrangeiras.

A cidade era atravessada pelas invenções modernas. Embora prevalecesse, na política, o interesse dos grandes proprietários, ligados à agroindústria açucareira, formava-se uma camada média, importante na discussão intelectual da época, com participação na imprensa. Aliás, era significativa a quantidade de jornais que circularam na década, com destaque para A Província, Diario de Pernambuco, Jornal do Commercio, Jornal Pequeno, Jornal do Recife. O mesmo ocorre com relação às revistas: Mauricéa, A Pilhéria, Revista do Norte, Revista da Raça, Revista de Pernambuco. Os jornais divulgavam, nas suas páginas, as sofisticações das novas que circulavam pela cidade: "Linguafono - máquina falante que ensina o inglês sem auxílio do mestre. Este método do professor americano Rosenthal tem dado os mais positivos resultados. Uma máquina com 26 discos e um excelente livro de explicações por 500$000".

Havia anúncios que mostravam a grande preocupação com a saúde. Um desses anúncios apresentava um remédio com poderes magistrais, chamado A Saúde da Mulher, que prometia ser o único seguro "para curar as flores brancas, as cólicas uterinas, as hemorragias, as suspensões, as regras dolorosas, a falta e escassez de regras, os incômodos da idade crítica, enfim, todas as doenças do útero e dos ovários". É interessante acrescentar a instalação de vários serviços urbanos que contribuem para modernizar a cidade, desde a segunda metade do século XIX: a inauguração da estrada de ferro Recife-Olinda-Beberibe (1870), serviços telegráficos (1873), serviço telefônico manual (1881), serviço de bondes elétricos (1914), nova rede de esgoto (1915), inauguração do tráfego aéreo Recife-Rio-Buenos Aires (1925), entre outros.

O Recife vivia dias de festa com a passagem de aviões. O primeiro a chegar foi o Portugal, pilotado por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, no dia 5 de junho de 1922. Os aviadores portugueses atravessaram o Atlântico, feito registrado em monumento instalado na Praça 17, bairro de Santo Antônio. Mas a grande festa se deu com a chegada do Graf Zepellin, no dia 22 de maio de 1930.

As diversões públicas

Os espetáculos teatrais traziam artistas famosos. No ano de 1924, estiveram no Recife, entre outros, a Companhia de Lea Candini e a Companhia Velasco. A opereta Berenice, de Valdemar de Oliveira, estreou no dia 2 de fevereiro de 1926, terminando a exibição às 3 da madrugada. Além disso, a Rádio Clube passou a funcionar em 1924, localizando-se sua sede na Rua da Aurora. Os seus primeiros anunciantes foram o Café São Paulo, a Fratelli Vita (refrigerantes), a Telefunken e a Philips do Brasil. Cada anunciante pagava 30 mil réis por mês. Suficiente para financiar o salário de dois funcionários, o locutor e o servente.

O carnaval agitava sempre a cidade. Os blocos, com suas fantasias, os bailes no Jockey e no Internacional, o molha-molha, a brincadeira dos mascarados, os corsos nas ruas com os caminhões ornamentados, os namoros escondidos na folia, tanta diversão mudava o cotidiano. Era a festa onde todos se misturavam, cantando versos de canções populares ("Ai! Meu bem! Vamos brincar! Se você não tem dinheiro, não seja esse o embaraço: - Vamos cair no frevo! - Vamos fazer o passo! - Porque sem vintém é que se brinca bem"). O fascínio pelo carnaval, pelas tardes de regata no Capibaribe, pelo futebol, era comum. O famoso campo da Avenida Malaquias era palco de jogos emocionantes, muitas vezes com times de outros estados como o Flamengo, o Comercial de Ribeirão Preto e o São Cristóvão.

O flâneur de que fala Walter Benjamin não se depararia no Recife com as trilhas da modernidade parisiense, com as suas galerias, vitrines e grande agitação cultural das vanguardas artísticas e literárias. A sua trilha seria bem outra. Mas encontraria o desfilar da moda na Rua Nova, ouviria o som do jazz-band nas casas de chá, leria sobre o impacto das invenções modernas nas páginas d'A Pilhéria, encontraria os intelectuais discutindo na esquina da Lafayette, na rua do Imperador. Os cenários urbanos recifenses registravam sinais do moderno e das suas inquietações. Os bondes, os automóveis, o telefone modificavam as relações entre o público e o privado. Muitos reclamavam da velocidade dos automóveis e da intromissão do telefone nas vidas particulares. A convivência com a tradição não era pacífica, causava impactos, admiração, receios. A história das primeiras décadas republicanas não se resumiu às vozes autoritárias das chamadas oligarquias.

Não se deve esquecer que, antes da década de 20, greves operárias agitaram a cidade, como as de 1917 e 1919, paralisando atividades e criando confrontos políticos. As greves mostraram as insatisfações com as condições de vida existentes e tiveram participação marcante dos trabalhadores da Great Western. Em 1920 e 1921, novos movimentos de protestos tomaram conta da cidade. Houve grande mobilização contra a proposta tributária do governo, com articulações pluriclassistas, em que se destacou a polêmica atuação de Joaquim Pimenta, professor da Faculdade de Direito. Em 1922, fundava-se o Partido Comunista, com um núcleo de atuação marcante na política de resistência no Recife, com destaque para Cristiano Cordeiro. Todas essas tramas políticas revelam um aspecto importante da história da cidade: a luta social que teve sempre espaço nas suas ruas, apesar de todo autoritarismo existente. O discurso da modernização precisa alcançar e aprofundar a dimensão da cidadania, denunciando e reivindicando, na prática, uma sociedade mais justa.

A CHEGADA DO SÉCULO XX O Recife quer ser modernoOs autores que discutem a modernidade fazem registros diferentes dos seus significados. As dimensões que teve o modernismo nas artes, a agitação cultural do final do século XIX e o início do século XX, a encantadora Belle Époque, mostram a busca de novas linguagens para traduzir as velozes mudanças trazidas pelas novas técnicas. Os tempos modernos ampliaram a diversidade, os projetos de dominação da natureza, as sutilezas que envolvem as relações de poder, as tramas sociais e políticas. Instauraram o culto, às vezes cego, ao progresso.A idéia de revolucionar o mundo e de aumentar a capacidade do homem de compreender e compreender-se criaram cenários para consolidação de um modo de fazer e representar a História, antes inimaginável. Mas nem tudo foi encanto ou mesmo concretização dos sonhos e das utopias. São os contratempos que nos fazem questionar o que foi a modernidade, até onde o apagar das tradições e a fragmentação da memória contribuíram para a crise do mundo contemporâneo e as tensas relações entre o antigo e o moderno.O historiador leva para o passado as suas inquietações cotidianas. O passado não é algo petrificado. Quando nos voltamos para a década de 20 no Recife, não podemos fugir da sua especificidade, para que esse diálogo entre os tempos históricos se aprofunde. Aquilo que provocava um forte impacto pela sua novidade, pelos seus ares de moderno, tinha um outro contexto, outras representações, outro imaginário. O novo e o velho eram mais nítidos, a referência à tradição era constante, a memória não estava tão fragmentada, o cotidiano da cidade não sofria tão velozes invasões, convivia com ansiedades bem diferentes das nossas.Modernismos e modernizaçãoAs duas primeiras décadas do século XX conviveram com experiências de modernização importantes, sintonizadas com as mudanças que ocorreriam com a expansão das práticas capitalistas. O Recife não ficou ausente dessas mudanças. O prefeito Eduardo Martins, nomeado pelo governador Sigismundo Gonçalves, em 1904, tomou medidas chamadas disciplinadoras que causaram reações negativas da população, uma delas referente à coleta de lixo. O governo de Dantas Barreto, na década de 10, trouxe proposta de modernização na administração do Estado, uma reorganização do núcleo de poder dominante, antes subordinado às ordens políticas de Rosa e Silva. O seu governo buscou articulações com os trabalhadores urbanos e adotou um discurso salvacionista. Além disso, destacaram-se o plano do engenheiro Saturnino de Brito e as obras feitas para sua concretização, marcantes para a estrutura urbana do Recife.Na década de 20, o Recife tinha uma importância regional destacada, um setor de serviços significativo, apesar das constantes crises que afetavam a economia pernambucana decorrentes da prevalência dos interesses da agroindústria açucareira. A sua população teve um crescimento expressivo: dos 113 mil habitantes, em 1900, passou para aproximadamente 239 mil, em 1920. Com uma história que atravessava períodos distintos, possuía desenhos urbanos diferenciados, memórias solenes de tantas lutas e dificuldades. Os seus atores celebravam e recordavam feitos e, no imaginário, a forte presença do passado dava margem a múltiplas interpretações.Além disso, outros sinais indicativos das mudanças que ocorriam na cidade eram os debates sobre a modernização. A reorganização dos serviços de higiene e saúde públicas ganhou uma dinâmica importante, pois mexia com o cotidiano e os costumes da cidade. Envolvia reformas urbanas que provocavam polêmicas na população e teve sua época áurea no governo de Sérgio Loreto (1922-1926). Comandada por Amaury de Medeiros, a reformulação dos serviços de higiene e saúde se propunha a reduzir a caótica situação em que se encontravam, fortalecendo uma ação, considerada pelos seus autores como civilizadora, e marcada pelo saber científico. O doente mental, antes confundido com um marginal comum, passa a ter um tratamento diferenciado. Falava-se em eliminar as feições coloniais e tropicais do Recife. As palavras de ordem eram "urbanizar, civilizar e modernizar".Houve uma mobilização destacada nesse sentido, incentivando-se a construção de casas populares, a erradicação dos mocambos, os aterros dos mangues, a ampliação dos serviços de luz elétrica, a abertura de ruas e avenidas. Foi da época do governo de Sérgio Loreto o polêmico processo de urbanização da praia de Boa Viagem. A cidade expandia-se para outras áreas, buscando novas formas de lazer, seguindo modelos externos. O noticiário da imprensa da época registrava esses acontecimentos, acompanhando a remodelação do cenário urbano e as perplexidades que trazia. As elites governantes procuravam efetivar esse desejo de modernização, tão presente nas grandes cidades da época, redimensionando os espaços urbanos, multiplicando os lugares possíveis para a expansão do capital. Nem todos aceitavam ou usufruíam dos privilégios das reformas urbanas. Essa é a dinâmica da formação das cidades, seus projetos de modernização não são, apenas, "civilizatórios" ou "urbanísticos", mas expressam conflitos que se desenvolvem nos seus cotidianos, vinculados também a uma luta dos desfavorecidos por melhores condições de vida e trabalho. A cidade é o cenário maior dessas lutas.Os debates e as reformulações não estavam restritos às reformas urbanas. As repercussões da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922, provocaram os intelectuais pernambucanos da época. Gilberto Freyre estava voltando dos seus estudos nos Estados Unidos e começava a ter uma liderança significativa no meio recifense. Aliás, ele já escrevia artigos polêmicos no Diario de Pernambuco, desde 1918. Em 1925, numa edição especial de comemoração do centenário do mesmo jornal, Freyre coordenou a publicação do Livro do Nordeste, com ensaios nas mais diversas áreas de pesquisa feitos por intelectuais nordestinos. Em 1926, articulou o Congresso Regionalista, "tradicionalista e a seu modo modernista", de onde se afirma haver saído o famoso Manifesto Regionalista, fato amplamente contestado por Joaquim Inojosa. Posteriormente, com Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos, Região e tradição, Gilberto Freyre iria desenvolver uma vasta obra renovadora para a sociologia produzida no Brasil, marcada pela polêmica ou pelo elogio fácil.Na década de 20, antes de escrever suas obras mais destacadas, Freyre caminhava por trilhas realmente provocativas. Não se aliava àqueles que se encantavam, sem crítica, com a modernidade, ao contrário, colocava limites e censuras aos desejos de modernização, enfatizando o valor das tradições, alimentando um saudosismo dos outros tempos do Recife. Considerava-se, no entanto, a seu modo, um modernista. Estava atualizado com as mudanças ocorridas na Europa e nos Estados Unidos e as divulgava. Freyre deu grande alento ao debate intelectual da época e sua obra tem inegável valor para se entender a formação da sociedade brasileira.Joaquim Inojosa representou o contraponto. Incorporou-se, sem maiores dúvidas, ao discurso modernista de 1922 e se considerou seu mais fiel representante no Nordeste. Procurou divulgá-lo no Recife e conseguiu muitos adeptos e espaço na imprensa. As suas polêmicas ficaram famosas. Deixou registros amplos da sua trajetória modernista e das discussões com seus opositores, em três volumes, fartamente documentados, intitulados O movimento modernista em Pernambuco. Inojosa manteve vários contatos com os intelectuais de outros Estados ligados ao modernismo, introduzindo suas publicações no meio da intelectualidade recifense. Escreveu em órgãos importantes da imprensa da época como A Pilhéria, o Jornal do Commercio e fundou a revista Mauricéa. Teve no poeta Austro Costa um dos companheiros mais próximos, na sua cruzada modernista.A modernidade e o modernismo não propiciavam discussões que abrangessem parcela significativa da população. Tratava-se de idéias de circulação restrita, patrimônio das elites intelectuais e políticas. Porém, o processo de modernização dos serviços públicos atingia mais de perto seu cotidiano, provocava reações mais amplas, envolvia mais pessoas. Sinais de que as idéias modernas estavam circulando, penetravam nos costumes enraizados, mexiam com as tradições, estavam presentes na própria imprensa, nos jornais e nas revistas. Alguns desses sinais eram visíveis nas propagandas feitas na imprensa, cujo conteúdo registrava o uso do termo moderno para valorizar o produto. O moderno e o tradicional dialogavam, com seus signos e projetos.Os movimentos do cotidianoA década de 20 foi também cenário do ciclo de cinema no Recife, com destaque na produção cinematográfica brasileira. O Recife era conhecido como a Hollywood brasileira. Muitos filmes foram produzidos e alguns tornaram-se clássicos como A filha do advogado, Aitaré da praia, entre outros. O ciclo do Recife chegou a produzir 13 filmes em oitos anos, no período de 1923-31. A maior parte dos envolvidos na elaboração dos filmes estava na faixa de 20 a 25 anos. A partir da fundação da Aurora-Filme, Edson Chagas e Gentil Roiz desencadearam a produção de filmes, no Recife. Contaram os produtores com o entusiasmo de Joaquim Matos, proprietário do cine Royal que transformava cada exibição cinematográfica numa verdadeira festa. Apesar da falência da Aurora-Filme, em 1925, no seu projeto original, o ciclo continuou. Outras figuras se destacaram, como Jota Soares, Pedrosa da Fonseca, Pedro Salgado e tantos outros. O Recife convivia também com salas cinematográficas que exibiam com destaque as produções estrangeiras.A cidade era atravessada pelas invenções modernas. Embora prevalecesse, na política, o interesse dos grandes proprietários, ligados à agroindústria açucareira, formava-se uma camada média, importante na discussão intelectual da época, com participação na imprensa. Aliás, era significativa a quantidade de jornais que circularam na década, com destaque para A Província, Diario de Pernambuco, Jornal do Commercio, Jornal Pequeno, Jornal do Recife. O mesmo ocorre com relação às revistas: Mauricéa, A Pilhéria, Revista do Norte, Revista da Raça, Revista de Pernambuco. Os jornais divulgavam, nas suas páginas, as sofisticações das novas que circulavam pela cidade: "Linguafono - máquina falante que ensina o inglês sem auxílio do mestre. Este método do professor americano Rosenthal tem dado os mais positivos resultados. Uma máquina com 26 discos e um excelente livro de explicações por 500$000".Havia anúncios que mostravam a grande preocupação com a saúde. Um desses anúncios apresentava um remédio com poderes magistrais, chamado A Saúde da Mulher, que prometia ser o único seguro "para curar as flores brancas, as cólicas uterinas, as hemorragias, as suspensões, as regras dolorosas, a falta e escassez de regras, os incômodos da idade crítica, enfim, todas as doenças do útero e dos ovários". É interessante acrescentar a instalação de vários serviços urbanos que contribuem para modernizar a cidade, desde a segunda metade do século XIX: a inauguração da estrada de ferro Recife-Olinda-Beberibe (1870), serviços telegráficos (1873), serviço telefônico manual (1881), serviço de bondes elétricos (1914), nova rede de esgoto (1915), inauguração do tráfego aéreo Recife-Rio-Buenos Aires (1925), entre outros.O Recife vivia dias de festa com a passagem de aviões. O primeiro a chegar foi o Portugal, pilotado por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, no dia 5 de junho de 1922. Os aviadores portugueses atravessaram o Atlântico, feito registrado em monumento instalado na Praça 17, bairro de Santo Antônio. Mas a grande festa se deu com a chegada do Graf Zepellin, no dia 22 de maio de 1930.As diversões públicasOs espetáculos teatrais traziam artistas famosos. No ano de 1924, estiveram no Recife, entre outros, a Companhia de Lea Candini e a Companhia Velasco. A opereta Berenice, de Valdemar de Oliveira, estreou no dia 2 de fevereiro de 1926, terminando a exibição às 3 da madrugada. Além disso, a Rádio Clube passou a funcionar em 1924, localizando-se sua sede na Rua da Aurora. Os seus primeiros anunciantes foram o Café São Paulo, a Fratelli Vita (refrigerantes), a Telefunken e a Philips do Brasil. Cada anunciante pagava 30 mil réis por mês. Suficiente para financiar o salário de dois funcionários, o locutor e o servente.O carnaval agitava sempre a cidade. Os blocos, com suas fantasias, os bailes no Jockey e no Internacional, o molha-molha, a brincadeira dos mascarados, os corsos nas ruas com os caminhões ornamentados, os namoros escondidos na folia, tanta diversão mudava o cotidiano. Era a festa onde todos se misturavam, cantando versos de canções populares ("Ai! Meu bem! Vamos brincar! Se você não tem dinheiro, não seja esse o embaraço: - Vamos cair no frevo! - Vamos fazer o passo! - Porque sem vintém é que se brinca bem"). O fascínio pelo carnaval, pelas tardes de regata no Capibaribe, pelo futebol, era comum. O famoso campo da Avenida Malaquias era palco de jogos emocionantes, muitas vezes com times de outros estados como o Flamengo, o Comercial de Ribeirão Preto e o São Cristóvão.O flâneur de que fala Walter Benjamin não se depararia no Recife com as trilhas da modernidade parisiense, com as suas galerias, vitrines e grande agitação cultural das vanguardas artísticas e literárias. A sua trilha seria bem outra. Mas encontraria o desfilar da moda na Rua Nova, ouviria o som do jazz-band nas casas de chá, leria sobre o impacto das invenções modernas nas páginas d'A Pilhéria, encontraria os intelectuais discutindo na esquina da Lafayette, na rua do Imperador. Os cenários urbanos recifens

s registravam sinais do moderno e das suas inquietações. Os bondes, os automóveis, o telefone modificavam as relações entre o público e o privado. Muitos reclamavam da velocidade dos automóveis e da intromissão do telefone nas vidas particulares. A convivência com a tradição não era pacífica, causava impactos, admiração, receios. A história das primeiras décadas republicanas não se resumiu às vozes autoritárias das chamadas oligarquias.Não se deve esquecer que, antes da década de 20, greves operárias agitaram a cidade, como as de 1917 e 1919, paralisando atividades e criando confrontos políticos. As greves mostraram as insatisfações com as condições de vida existentes e tiveram participação marcante dos trabalhadores da Great Western. Em 1920 e 1921, novos movimentos de protestos tomaram conta da cidade. Houve grande mobilização contra a proposta tributária do governo, com articulações pluriclassistas, em que se destacou a polêmica atuação de Joaquim Pimenta, professor da Faculdade de Direito. Em 1922, fundava-se o Partido Comunista, com um núcleo de atuação marcante na política de resistência no Recife, com destaque para Cristiano Cordeiro. Todas essas tramas políticas revelam um aspecto importante da história da cidade: a luta social que teve sempre espaço nas suas ruas, apesar de todo autoritarismo existente. O discurso da modernização precisa alcançar e aprofundar a dimensão da cidadania, denunciando e reivindicando, na prática, uma sociedade mais justa.

MOCAMBOS E MODERNIZAÇÃO (1930-1945)

Dois olhares sobre a cidade

No início dos anos 30, o descompasso entre o sonho e a realidade dividia a paisagem recifense. A cidade crescia, mas não tinha estrutura para acolher devidamente seus habitantes. Nas áreas ribeirinhas surgiam os chamados mocambos, a cidade anfíbia, onde moravam os cidadãos feitos de carne de caranguejo, como descreveu Josué de Castro. Essa realidade contrastava com o Recife dos sonhos, do mais bem equipado porto do país, da indústria em crescimento, dos cafés e restaurantes, dos teatros e cinemas luxuosos, das grandes mansões, de lugares aprazíveis como o bairro do Derby ou a praia de Boa Viagem.

Despedidas turbulentas

No dia 3 de maio de 1929, artistas pernambucanos, liderados por Mário Nunes, promoveram, no Teatro de Santa Isabel, o I Salão Pernambucano de Belas Artes. Seguiram-se outras exposições marcantes, como a de Murillo La Greca, e a organizada pela revista parisiense Montparnasse, com a intermediação de Vicente do Rego Monteiro. Em 1932, foi criada a Escola de Belas Artes que contribuiu para incentivar as artes plásticas. A agitada década de 20 se despedia, mas não sem turbulência. Depois de tantas convivências contraditórias entre o antigo e o moderno, dos carnavais animados pelas músicas de Capiba e Nelson Ferreira, pelos passistas do Clube das Pás, do Batutas de São José e tantos outros, pelas regatas dos domingos ensolarados, pelas discussões dos intelectuais, pelas disputas políticas das oligarquias, sempre temerosas com as manifestações populares, aconteceu a famosa Revolução de 30. Resultado das dissidências entre as elites dirigentes, o movimento de 1930 trouxe redefinições na organização do poder central, com a chegada de Getúlio Vargas ao comando político do Brasil.

O fato que fez eclodir o movimento aconteceu no Recife, com o assassinato do paraibano João Pessoa, candidato derrotado à vice-presidência da República. Embora o movimento não tenha trazido propostas de mudanças estruturais, se pensarmos num modelo das revoluções burguesas européias, a presença do povo nas ruas, reivindicando, procurando radicalizar, mostra que as insatisfações não podem ser reduzidas a uma mera disputa dos grupos dominantes.

As ruas do Recife tornaram-se palco de embates, incendiaram-se residências, como a de Pessoa de Queiroz, dono do Jornal do Commercio, e alguns estabelecimentos comerciais. O governador Estácio Coimbra fugiu, exilando-se na Europa. Carlos de Lima Cavalcanti, co-proprietário da usina Pedrosa e dos jornais Diario da Manhã e Diario da Tarde, foi nomeado interventor do Estado de Pernambuco. Lima Cavalcanti pertencia às oligarquias locais e tentou situar-se, politicamente, entre as forças que exigiam reformas e as mais conservadoras. Difícil tarefa, pois terminou por provocar desconfiança de ambas as partes, sobretudo dos que exigiam mudanças mais substanciais. O Brasil vivia o drama da construção de uma sociedade efetivamente moderna, buscava seu caminho próprio. Ao mesmo tempo, não deixava de ser influenciado pelos países economicamente mais poderosos. Com a grande crise de 1929, o capitalismo sofreu abalos e redefinições. O fascismo e o nazismo ganhavam espaços reafirmando modelos políticos autoritários. O movimento de 1930 estava envolvido por essas perplexidades. Enfim, perguntava-se: que país seria possível construir? Qual a trilha a seguir? Qual a nossa identidade nacional?

Lima Cavalcanti cercou-se de pessoas das mais variadas tendências, entre elas Etelvino Lins, Fernando Mendonça, José do Rego Maciel, procurou articular-se com Cristiano Cordeiro, fundador do Partido Comunista, sem êxito. Enfrentou, em outubro de 1931, o levante do 21º Batalhão de Caçadores que contou com a adesão de parte da população. A rebelião abalou a cidade por três dias. A situação foi controlada e o chefe civil da rebelião, Pedro Calado, foi preso, juntamente com outros participantes que terminaram por ser enviados para Fernando de Noronha. Com certeza, Lima Cavalcanti encontrou dificuldades até mesmo na sua relação com o poder central, confrontando-se com o ministro da Viação e Obras Públicas, José Américo de Almeida, reclamando da distribuição injusta de verbas para combater a seca.

O olhar dos contrastes: a Mucambópolis

No início dos anos 30, o Recife continuava apresentando claros sinais de modernização. Contava com cerca de 1.148 empresas, dos mais variados ramos da produção: bebidas, móveis, óleos, massas, cigarros, entre outros. Possuía uma indústria têxtil expressiva, com 5.453 operários, destacando-se a Companhia de Fiação e Tecidos de Pernambuco, situada na Torre, e três cotonifícios pertencentes à família Bezerra de Melo. São importantes também os dados referentes à habitação, existindo 23.210 mocambos e 23.869 prédios, com uma população que variava entre 238 mil (1920) e 348 mil (1940). Na análise da historiadora Zélia Gominho, no seu livro Veneza americana x mucambópolis, "apesar do alto índice de mortalidade infantil e entre jovens de 21 a 30 anos, a população crescia, alimentada pelas migrações. Sentia-se um aumento de construções particulares, especialmente nos subúrbios do Derby, Casa Amarela, Dois Irmãos e Espinheiro, caracterizados como elegantes palacetes, bangalôs, vilas e vilinos".

O Recife se mantinha como a cidade onde as águas determinavam muito a sua ocupação. Os que vinham do interior, seduzidos pelo charme da metrópole, pelas dificuldades econômicas existentes no campo, encontravam obstáculos para firmar suas moradias. Tudo isso facilitava a especulação imobiliária e atormentava a vida dos mais pobres. Disputavam-se espaços. Lima Cavalcanti, em 1934, procurou, através de um decreto, intervir no comércio de mocambos. No seu artigo 20, o decreto afirmava: "A construção ou reconstrução de mocambos no perímetro principal e urbano desta capital não será permitida, e, na zona suburbana, somente em pontos determinados pela prefeitura". Ainda segundo as observações de Zélia Gominho, a população pobre procurava outras opções: "Os antigos sobrados da rua da Praia eram a possibilidade de economizar no pagamento da água e na passagem de bonde para o trabalho, pagando-se o mesmo valor de aluguel cobrado por um mocambo no subúrbio (40$000). A desvantagem eram as condições higiênicas; famílias se aboletavam em espaços mínimos com pouca ventilação sendo denunciados como perigosos focos de doenças, como a tuberculose".

A questão da habitação é uma questão social que necessita de atenção especial dos poderes públicos. A situação do Recife não era muito diferente de outras áreas metropolitanas. As cidades recebem fluxos de pessoas, mas não têm como acolhê-las. Criam-se paisagens urbanas marcadas pela miséria, contrastando com outras sofisticadas, com mansões feitas com requintes dos mais atualizados modelos arquitetônicos. O Recife convivia com essas visíveis e chocantes contradições. Zélia Gominho observa que Mucambópolis localizava-se "às margens dos rios Capibaribe, Tejipió, Jiquiá e Beberibe, nas ilhas formadas por esses rios (ilhas: do Leite, Coelhos, Joana Bezerra, do Retiro, do Maruim...) e mais dos rios Jordão e Pina, no Cabanga, à beira do encontro entre os rios e o mar, onde desaguava a gente que com o rio vinha se retirando, formando essa cidade anfíbia, aquática, sem nome, sob a capital tão conhecida".

O olhar oficial: a cidade dos sonhos

Uma publicação da Prefeitura da Cidade nos traz um outro olhar. Trata-se de um guia do Recife, ilustrado com fotografias da época, numa edição cuidadosa e em três línguas: português, inglês e francês. Vamos navegar por essas informações que nos mostrarão uma outra cidade, liberta dos contrastes que registramos acima, encantadora e bem administrada. Uma análise revela as intenções do guia: "O aspecto geral da cidade constitui uma magnífica perspectiva, pelo variado pinturesco da sua fisionomia tropical, com seus coqueirais e praias extensas e arenosas. Boa edificação, perfeito serviço de saneamento e abastecimento de água, cada dia mais ampliada no sentido Oeste, o Recife irá desenvolver-se de acordo com um plano racional e moderno, traçado em face das exigências do urbanismo (...) Clima agradável, sem grandes variações de temperatura, atinge, nas épocas de máximo calor, a 33 graus e na de mínimo calor 19 graus (...) A brisa constante explica a atenuação do calor, em região tão próxima ao Equador; sente-se aqui menos calor que em Santos, Rio de Janeiro e outras cidades. Não há casos de insolação."

Esse paraíso tropical tem um porto esplêndido, sendo o mais importante centro comercial do Nordeste, com um eficaz serviço de carros elétricos da Pernambuco Tramways. "Os bondes partem todos da praça Afonso Pena, seguindo, uns pela avenida Rio Branco e ponte Buarque de Macedo e outros pela avenida Marquês de Olinda e ponte Maurício de Nassau". Segundo o guia, a rede de esgotos é magnífica e há um elogiado sistema de comunicação que liga a cidade com o restante do país. O Recife apresenta um atraente aspecto arquitetônico, com ruas calçadas e construções que obedecem às condições de higiene, com destaque para a atuação da Diretoria de Obras Públicas Municipais. Além disso, a capital de Pernambuco, acha-se ligada à Europa e à América do Norte por linhas aéreas. A sua divisão territorial é composta de oito freguesias ou distritos: Recife, Santo Antônio, São José, Boa Vista, Afogados, Graças, Poço da Panela e Várzea. O mais vasto e populoso é o de São José, sendo os distritos do Poço, das Graças, de Afogados e da Várzea, os mais afastados do centro, zonas pitorescas e residenciais. Cabe acrescentar que o porto do Recife "é, incontestavelmente, um dos mais bem aparelhados do Brasil".

A cidade possui bons hotéis, localizados na Boa Vista e em Santo Antônio, entre eles o Hotel Central, o Grande Hotel (na época em construção), Hotel Glória, Palace Hotel e agradáveis restaurantes, bares, cafés e cabarés que animavam a vida social: o Leite (praça Joaquim Nabuco), a Helvética (rua do Imperador), o Europe (rua do Bom Jesus); os bares Crystal (rua Joaquim Távora), Fênix (rua Duque de Caxias), os cafés Chileno (rua do Bom Jesus) e Continental (rua do Imperador); os cabarés Taco de Ouro (av. Marquês de Olinda) e Pernambucano (praça do Paraíso). Há praças de automóveis de aluguel situadas nas mais diversas localidades (av. Rio Branco, praça Maciel Pinheiro, rua do Hospício, Parque Amorim, praça da Encruzilhada). Com isso, garantem-se aos mais abastados condições para fazer passeios em localidades destacadas pelo guia: avenida Boa Viagem (com esplêndidas residências de verão), Dois Irmãos (onde há o horto), Derby (bairro moderno), Gurjaú (distante 32 km do Recife), Olinda (com sua história e seus banhos de mar).

Além dos inúmeros pontos históricos, a cidade possui lazeres modernos: os teatros de Santa Isabel, Moderno (na praça Joaquim Nabuco), do Parque, os cines Royal (rua João Pessoa), Encruzilhada, Espinheirense, Politeama (rua Barão de São Borja), Glória (pátio do Mercado de São José) ou belas praças como a da República, a do Derby, a Joaquim Nabuco, a Maciel Pinheiro, a Siqueira Campos, onde se poderia sentar para ler os jornais da época como o Diario de Pernambuco, o Jornal do Commercio, o Diario da Manhã, o Jornal Pequeno. Assim, a cidade se apresentava com suas seculares e belas igrejas, com seus movimentados clubes sociais, com uma rede de hospitais considerada moderna como a recém construída Maternidade do Derby ou os famosos Real Hospital Português da Beneficência em Pernambuco, Hospital Centenário e o Hospital D. Pedro II com capacidade para mais de 500 enfermos. O Recife era a cidade dos sonhos, seus contrastes tornavam-se invisíveis. Vendia-se a cidade como uma mercadoria, já naqueles tempos, escondendo os seus mocambos e o árduo cotidiano da maior parte da sua população.

Planos para a cidade

A preocupação com a cidade fazia parte da construção da modernidade, quando suas populações cresceram de maneira assustadora. O engenheiro Domingos Ferreira apresentou, em 1928, um plano urbanístico preocupado em solucionar as questões de tráfego, influenciado pelo urbanismo haussmaniano, seguindo o modelo europeu. Essas discussões urbanísticas tinham se aprofundado quando da vinda do urbanista francês Alfred Agache ao Recife, em 1927, convidado pelo governo. O plano de Ferreira colocava a necessidade de haver desapropriações de prédios e terrenos e abertura de novas vias. Houve muitas polêmicas, mas o plano não chegou a ser executado.

O assunto não morreu. O Diario da Manhã publicou, em 22 de abril de 1932, as idéias do arquiteto Nestor de Figueiredo, premiado no IV Congresso Pan-Americano de Arquitetos, em 1930. O plano de Figueiredo tinha semelhanças com as idéias de Alfred Agache, mostrava fortes ligações com as teorias de urbanistas europeus e americanos. Segundo Isabella Leite, que dissertou sobre o ambiente cultural do Recife nas décadas de 30 e 40, "a semelhança com o plano de Agache se dá em vários aspectos: o aspecto cênico, com muitas perspectivas, avenidas em Y, praças e conjuntos monumentais, e a idéia do edifício que forma a cidade (os edifícios da av. 10 de Novembro, atual av. Guararapes), a idéia de criar um bairro exclusivamente de negócios e outro para comércio secundário. Propõe dois obeliscos em substituição do Arco de Santo Antônio". O plano foi submetido a vários pareceres, recebendo muitas críticas, não conseguindo ser aceito.

A Prefeitura resolveu contratar Atílio de Corrêa Lima, em 1936, para redefinir a questão. Atílio apresentou o Plano para o bairro de Santo Antônio e o Plano de Expansão da Cidade. Mais uma vez, nada se concretizou, só as acirradas polêmicas que levaram à retomada das idéias de Nestor de Figueiredo, resultado dos estudos feitos pela Comissão do Plano da Cidade, nomeada pelo prefeito Novaes Filho, em 1937. As gestões continuaram e entraram pela década de 40. Mais um urbanista foi convidado, o paulista Ulhôa Cintra que apresentou, em 1942, as Sugestões para a orientação do estudo de um plano geral de remodelação e expansão da cidade do Recife. Na análise de Virgínia Pontual, que analisa as décadas de 30 e 40 sob o ponto de vista do que denominou O saber urbanístico da cidade, a concepção do plano de Ulhôa Cintra enfatizava a articulação do antigo com o moderno. Acrescenta que "as sugestões compreendiam os seguintes aspectos: a remodelação do centro, a remodelação dos bairros de Santo Antônio e São José, a estrutura viária, o porto e sua futura expansão, a localização da nova estação central e o transporte ferroviário".

É importante assinalar, seguindo ainda as observações de Virgínia Pontual, que "o paradigma adotado nos planos para o Recife foi a cidade funcional, ordenada segundo as funções de habitar, trabalhar, circular e descansar; daí a ênfase na abertura de vias, no estabelecimento de avenidas-parques, além de outros parques e jardins, e na definição de zoneamentos nos quais cada lugar da cidade se caracterizaria por uma única função. Outro preceito do urbanismo moderno empregado extensivamente no bairro de Santo Antônio, ainda conforme Pontual, foi o princípio da tábua rasa, ou seja, em uma cidade de ruas estreitas e tortuosas, imagem de uma sociedade pré-industrial, não há o que preservar, não há o receio de demolir". Nem todos, porém, aceitavam a entrada radical do moderno. O assunto era polêmico. E os mocambos, para onde iriam?

A Mucambópolis ameaçada

Se o movimento de 1930 não trouxe a revolução, com suas redefinições no núcleo do poder, causou turbulências políticas importantes. Getúlio Vargas conseguiu manter-se como governante, costurando alianças. Seu discurso afirmava que a questão social não era mais um caso de polícia e que o Brasil precisava modernizar-se, fortalecer-se economicamente. A luta política apresentava radicalizações. Integralistas, influenciados pelo fascismo, e comunistas queriam ampliar suas áreas de influência e lutar para participar diretamente do poder político. O Recife era palco dessas disputas. O levante comunista de 1935 teve repercussões na cidade, adesões importantes, mas terminou reprimido. As ações da Aliança Nacional Libertadora -ANL- articularam os chamados democratas, que procuravam criar espaços de resistência. O governo de Vargas tinha um forte esquema de controle. Por decreto, extinguiu a ANL em 1935. O que era provisório, fixou-se mais ainda com a criação do Estado Novo, em 1937, num golpe dado com a ajuda dos militares conservadores, fechando a Câmara dos Deputados e o Senado, homologando uma constituição centralizadora, estabelecendo a ditadura. Foi nomeado para interventor de Pernambuco, seu ministro da Justiça e do Trabalho, Agamenon Magalhães, professor do Ginásio Pernambucano e da Faculdade de Direito do Recife.

Constituiu um secretariado de jovens, na sua maioria, formados em Direito e vinculados à Congregação Mariana. Controlou o movimento sindical, criando os centros educativos operários. Perseguiu os cultos afro-brasileiros. Fundou dois jornais: Folha da Manhã e Folha da Tarde para fazer propaganda das suas idéias. Fez como Vargas, usou também da persuasão, dos meios de comunicação, de mecanismos da produção cultural, para assegurar seu controle sobre os governados. Muitos que discordavam de sua política mudaram-se para outros estados, como foi o caso de Ulisses Pernambucano, conhecido como o grande modernizador do atendimento psiquiátrico no Recife. A sua equipe contava com políticos que iriam depois fazer uma carreira duradoura no Estado, como Paulo Guerra, João Roma, Etelvino Lins, Edson Moury Fernandes, José Francisco de Melo Cavalcanti, com ligações com o futuro Partido Social Democrata. Outros intelectuais importantes como Gilberto Freyre, Cícero Dias, Sílvio Rabelo, Lula Cardoso Ayres não se aproximaram do governo.

Agamenon investiu na erradicação dos mocambos, buscou com isso amenizar a situação de miséria em que boa parte da população vivia. Era o lado social do Estado Novo, que contava com influência e atuação da Ação Católica e suas idéias de conciliação política e negação da luta de classes. Foi a época de fundação da Escola de Serviço Social. A Liga Social Contra o Mocambo, criada em 1939, incumbiu-se de cumprir a difícil missão de atuar na resolução dos graves problemas de moradia. Seu programa não deu o resultado que o governo esperava. Transferia a população para lugares mais higiênicos, onde construía vilas populares, mas os colocava distantes dos locais de trabalho. Na verdade, informa Zélia Gominho, "as casas oferecidas pela campanha contra o mocambo não eram, na sua maioria, alugadas e sim vendidas à prestação, com isenção de impostos, em até quinze anos". O governo não obteve o sucesso que esperava, mas não se pode negar seus esforços na busca de alternativas.

Agamenon nomeou para prefeito Antônio Novaes Filho, ligado às oligarquias da cana-de-açúcar. Investiu-se, porém, do discurso modernizador, seguindo a linha política do Estado Novo. A sua ação administrativa modificou, sobretudo, a área central do Recife. No seu governo, iniciou a construção da avenida Dantas Barreto, demolindo edificações históricas, como a Igreja de Nossa Senhora do Paraíso e o Hospital João de Deus. Pavimentou importantes vias de acesso como a Estrada de Beberibe, a Estrada de Belém, a Estrada dos Remédios e a avenida Caxangá. O seu projeto de modernização contemplou também a instalação do Parque 13 de Maio, com o projeto do engenheiro Domingos Ferreira, e efetivou a substituição da iluminação a gás por elétrica, executada pela Pernambuco Tramways and Power Company Ltd. Houve preocupação com a paisagem, com os jardins das praças principais. Aliás, a cidade moderna não devia esquecer a dimensão estética. Ela é a grande moradia dos homens, os planos urbanos não esquecem de compor cenários, para torná-la aprazível, pelo menos na aparência.

REDEFINIÇÃO DOS CENÁRIOS URBANOS (1945-1964)

A arte expressa a vida

O Recife continuava atrativo nos anos 50. Muita gente abandonou o campo, no interior do Estado, e mudou-se para a capital, esperando usufruir de alguma prosperidade. Nesse período, a população superou meio milhão de habitantes.

Mas a cidade não comportava tantos sonhos. A economia não absorvia toda essa mão-de-obra e crescia o contingente de excluídos. Quem não tinha onde morar, construía um barraco no subúrbio, nos morros ou alagados.

Longe dos olhos da cidade, essa realidade ganhou expressão nas manifestações culturais, a exemplo da literatura e das artes plásticas. A arte engajava-se na luta política retratando o Recife e suas feridas, muitas delas abertas até hoje.

Um breve adeus para Vargas

A 2ª Guerra Mundial (1939-1945) modificou não só as relações políticas internacionais, como provocou grande repercussão na política interna dos países que dela participaram. O governo de Vargas não ficou alheio ao conflito. Inicialmente, houve as vacilações sobre a quem apoiar. Existiam muitos simpatizantes das idéias fascistas que eram componentes do ministério de Vargas. Vivia-se uma ditadura política com um forte controle sobre a população. A pressão externa fez, porém, com que o Brasil terminasse por optar pelas forças aliadas, das quais já participavam Inglaterra e Estados Unidos. E o Brasil, já dependente dos Estados Unidos, não pôde negar-se a aceitar a aliança. O conflito influenciou no cotidiano, estimulou preconceitos, adesões, houve choque nas ruas, inclusive aqui no Recife.

As manifestações contra italianos e alemães tornaram-se freqüentes. Os estudantes da Faculdade de Direito tiveram grande atuação, mostrando suas inquietações, comemorando as vitórias dos aliados, reivindicando mudanças políticas. Existiam, entre eles, grupos de várias tendências políticas, com a presença de liberais, comunistas, socialistas. O governo de Vargas procurava alternativas para se manter. As ligações de Agamenon Magalhães com o poder central estreitaram-se, mais ainda, quando Vargas o chamou para ocupar o cargo de Ministro da Justiça, no início de 1945, com a finalidade de chefiar a transição para um sistema democrático. Etelvino Lins ficou como seu substituto.

Os estudantes não retrocediam, marcados, ainda, pelos desdobramentos do comício de 3 de março de 1945, em que foram atingidos por tiros e faleceram o estudante Demócrito de Souza Filho e, dias depois, o carvoeiro Manuel Elias dos Santos.

Getúlio Vargas foi forçado a deixar o governo, seus planos de continuísmo estavam temporariamente desmontados e a oposição fortaleceu-se, com a vitória dos aliados. Não havia como manter a ditadura. O nazismo fora derrotado. Fundaram-se partidos que iriam atuar com destaque na vida política nacional: Partido Social Democrata (PSD), União Democrata Nacional (UDN), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Nas eleições para Presidente da República ganhou o general Eurico Gaspar Dutra, candidato do grupo getulista. No Recife, as eleições tiveram um resultado singular. O Partido Comunista conseguiu eleger três deputados federais (Gregório Bezerra, Agostinho Dias e Alcedo Coutinho), sendo o seu candidato a presidente, Iedo Fiúza, o mais votado. Barbosa Lima Sobrinho elegeu-se para Governador do Estado de Pernambuco, e embora sua eleição tenha sido contestada juridicamente, terminou por assumir o mandato. Acontecia uma reorganização do bloco que detinha o poder, mas o modelo democrático era frágil. Os "coronéis" mantinham sua influência e Vargas esperava o momento da volta. O discurso da modernização econômica "temia" a modernidade política, o exercício efetivo da cidadania.

A busca da modernização

Os governos mudavam, mas modernizar continuava sendo a palavra de ordem. O capitalismo ampliava seus espaços de controle e a cidade era um deles. Já vimos a campanha e a ação de Agamenon Magalhães para acabar com os mocambos. Entre os anos de 1939 e 1945, 13.355 mocambos foram demolidos. Há de se registrar que, em 1939, 63,7% dos prédios da cidade eram considerados mocambos, segundo estatísticas oficiais. O Recife recebia um expressivo contingente populacional vindo da zona rural, sonhando em melhorar de vida. É interessante assinalar que, em 1940, a população da cidade era de 348,4 mil pessoas, aumentando para 524,7 mil habitantes em 1950, tendo o município do Recife expandido sua área territorial na década de 50, de 180 km² para 209 km². A cidade adquiriu, nesse período, a forma urbana atual. As políticas modernizadoras não transformaram o cenário urbano no sentido de debelar a crescente miséria. A densidade populacional assustava e desafiava os planejadores, fossem eles tecnicistas ou humanistas, como o engenheiro Antônio Baltar, preocupado também em criar alternativas para superar as gritantes injustiças sociais.

Um olhar sobre os bairros revela as dificuldades. O bairro de Casa Amarela chegou a ter 81.746 habitantes, em 1950, passando para 126.474 em 1960. A ocupação dos morros de Casa Amarela começou na década de 1940, com as pessoas buscando alternativas de moradia depois da erradicação dos mocambos nas áreas mais centrais do Recife. Com relação ao bairro de Boa Viagem, assinale-se seu significativo aumento de população. De 27.862 pessoas, em 1950, passou para 75.600 habitantes em 1960. Contrastando com o afirmado acima, o núcleo formado pelos bairros do Recife, São José e Santo Antônio fazia o movimento contrário. O de Santo Antônio, que tinha 6.299, em 1950, decresce, em 1960, para 4.794 habitantes. Assim, a cidade ganhava, efetivamente, outros contornos, alargava-se, deixando o seu centro de ser área residencial importante, para ser invadido pelo comércio e pelo setor de serviços. Rompia-se com a forma tentacular anterior, como bem assinala Virgínia Pontual: "As áreas vazias entre os tentáculos, ao norte, foram ocupadas, tornando-se uma mancha contínua e compacta, abrangendo os bairros do Recife, Santo Antônio, São José, Boa Vista, Santo Amaro, Graças, Encruzilhada, Beberibe, Casa Amarela e Poço". O mesmo ocorreu, ao sul, "a partir da década de 1950, com o espraiamento da mancha urbana em quase toda extensão territorial da cidade, inclusive com a formação de novos bairros como Imbiribeira, Jordão e Ibura".

A cidade sofria forte intervenção do poder público, marcadamente a partir da administração de Novaes Filho, mas não se pode esquecer as décadas anteriores, quando a ação modernizadora já se fazia presente. Quando Pelópidas Silveira assumiu o cargo de prefeito, eleito pelo povo em 1955, como candidato da Frente do Recife, já trazia uma experiência anterior como prefeito nomeado em 1946, interrompida devido à opção por cargo legislativo. É importante frisar que, entre 1946 e 1955, a cidade foi governada por prefeitos com rápida passagem, muitas vezes inferior a um ano, entre eles Antônio Pereira, Jorge Martins, José do Rego Maciel, Djair Brindeiro. Com a eleição de Pelópidas, em 1955, o Recife conseguiu que fosse restabelecida sua autonomia política. Viviam-se tempos de exaltação desenvolvimentista. A Era Vargas havia findado tragicamente com o suicídio de Getúlio em 1954, depois de fortes pressões dos opositores que viram, assustados, o povo ir às ruas comovido e chocado com a morte do presidente. O seu fantasma segue presente na política brasileira, com certeza mais presente do que muitos que, vivos, tentam imitá-lo ou esquecê-lo.

A eleição de Juscelino Kubitschek, seu sucessor, não significou o fim do populismo, tampouco dos anseios de modernização. O Brasil vestia-se com as cores do progresso, esperando sempre pelo amanhã. Juscelino não hesitava, queria aprofundar a modernização. "50 anos em 5" era o lema que o guiava. O fascínio pela industrialização somava-se à grande abertura para o capital estrangeiro, os planos para a construção de uma capital, efetivamente, foram concretizados. Brasília, com todo seu simbolismo, edificou-se. O país fervilhava. A questão regional ganhava espaço nas discussões sobre a implantação de um modelo econômico que tirasse o Brasil do "atraso". A criação da SUDENE contribuiu para aprofundar os debates, depois do relatório do Grupo de Trabalho do Desenvolvimento do Nordeste (GTDN) sugerir saídas para resolver questões econômicas, antes vistas só na perspectiva climática, que condenava a região ao subdesenvolvimento. Havia esperança no ar, muita movimentação cultural, projetos, cinema novo, bossa nova, delírios nacionalistas, a televisão anunciando novos tempos, futebol campeão do mundo em 1958. Quem iria segurar este país?

A efervescência cultural

A participação dos estudantes era marcante na vida cultural e política. A Faculdade de Direito destacou-se pela produção intelectual dos professores, desde a segunda metade do século XIX, salientando a Escola do Recife, da qual participaram intelectuais reconhecidos nacionalmente como Tobias Barreto, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua, Artur Orlando, entre outros. Seus alunos atuaram nos movimentos abolicionista e republicano, o mesmo acontecendo nas lutas contra o autoritarismo do Estado Novo, em que estavam presentes figuras que seriam atuantes na vida intelectual e política pernambucana como Manuel Correia de Andrade, Odilon Ribeiro Coutinho, Paulo Rangel Moreira, José Inojosa de Andrade, Salviano Machado Filho, entre outros, conhecidos como membros da geração de 45. Nas décadas de 50 e 60, a presença dos estudantes fazia parte do cotidiano da cidade, com seus trotes e manifestações políticas, pois o "campus universitário" localizava-se no bairro da Boa Vista (por exemplo, a Escola de Engenharia situava-se na Rua do Hospício, próxima da Faculdade de Direito, ainda hoje em frente ao Treze de Maio; a Faculdade de Filosofia ficava na Soledade, em frente à antiga fábrica de guaraná Fratelli Vita, muito consumido na época). Com a instalação da cidade universitária, na Várzea, houve uma efetiva mudança no poder de impacto da ação dos estudantes.

A chamada redemocratização acendeu ainda mais os ânimos de uma cidade que, com uma tradição secular, era cenário de polêmicas importantes. Gilberto Freyre continuava atuante, já conhecido nacionalmente pela defesa do regionalismo e pela obra Casa-grande & senzala. No campo das artes plásticas, fundou-se em 1948, a Sociedade de Arte Moderna, com atuação de artistas que se tornariam, mais tarde, bastante conhecidos, como Abelardo da Hora, Reinaldo Fonseca, Ladjane Bandeira. Foram organizadas, a partir de 1948, bibliotecas populares nos bairros da Encruzilhada, Santo Amaro, Casa Amarela e Afogados, destacando-se, no centro da cidade, a discoteca pública, com grande aceitação popular, demonstrando a preocupação do governo municipal com a democratização da cultura. Registre-se a afluência do público às bibliotecas, estimulando e justificando a existência de políticas dirigidas aos de menor poder aquisitivo. Tudo isso se constituía dentro de um contexto mais amplo, em que estava afirmada a preocupação com a conscientização do povo, para que fosse sujeito de mudanças políticas transformadoras. Exigia-se, portanto, do intelectual, uma prática pedagógica envolvida com o social e não apenas com a especulação acadêmica.

A imprensa continuava sendo um espelho das tendências existentes. Não só o debate cultural, como o político, se faziam presentes nos jornais da época. O Recife mantinha sua tradição. Além dos mais antigos, surgiam, na década de 50, novos ocupantes dos espaços jornalísticos, como Jomard Muniz de Britto, José de Souza Alencar, Paulo Fernando Craveiro, Alexandrino Rocha, Renata Cardoso, Jorge Abrantes, envolvidos com a crônica cinematográfica, cada vez mais presente, devido à influência crescente do cinema no cotidiano da população, muitos deles com uma atuação intelectual que se estende por décadas.

Aliás, a produção cinematográfica foi retomada, com apoio do poder público, com a filmagem d'O canto do mar (1952-1953), do cineasta Alberto Cavalcanti, causando inúmeras controvérsias. A chegada de Cavalcanti ao Recife provocou uma movimentação inusitada, com muito espaço na imprensa e muita expectativa dos amantes do cinema. Ele prometia produzir o filme com a colaboração de intelectuais e artistas pernambucanos. Segundo Luciana Araújo: "O entusiasmo, a desconfiança ou o franco descrédito em relação a O canto do mar são produtos de fatores vários que vão desde acordos e desacordos diante dos valores cinematográficos de Cavalcanti até a postura descrente ou simpática ao cinema brasileiro em geral e a uma possível produção pernambucana, em particular, passando por desentendimentos pessoais entre os cronistas - anteriores à chegada do diretor - e ainda pela escolha deste ou daquele para integrar a equipe do filme".

Numa terra de tantos poetas importantes, para a poesia moderna no Brasil, como Carlos Pena Filho, Manuel Bandeira, Austro Costa, Joaquim Cardozo, João Cabral de Melo Neto, o teatro tinha, também, uma produção destacada. Nessa época, passou por um período de revelação de talentos e de atuação marcante nos espaços culturais da cidade. Hermilo Borba Filho teve uma liderança especial com o Teatro do Estudante de Pernambuco, contando com a colaboração importante de Gastão de Holanda, Aloísio Magalhães, Joel Pontes, Ana Canen, Ariano Suassuna, entre outros. A estréia do grupo aconteceu em abril de 1946. Procurava-se fazer espetáculos para as populações dos bairros mais pobres, numa atuação característica de agentes culturais, cuja preocupação era a questão social. Marcante foi, sem dúvida, a presença do Teatro de Amadores de Pernambuco. Valdemar de Oliveira, que teve participação fundamental no grupo, afirma em suas memórias: "O TAP se tornou uma espécie de núcleo de cristalização das melhores figuras do palco amadorista pernambucano. Sem se propor abertamente a isso, veio a tornar-se um verdadeiro curso de arte dramática, numa cidade onde nem sequer se cogitava disso".

As manifestações culturais encontravam espaço de divulgação na imprensa, inclusive nas rádios de maior audiência, Jornal do Commercio e a pioneira Rádio Clube. Não vivíamos, ainda, os tormentos e as seduções da globalização acelerada atual. Isso incentivava a produção cultural local, sua criatividade e autonomia, como fica bem evidente na atuação da Fábrica de Discos Rozemblit que divulgou a música regional, com seus discos circulando em todo Brasil. O carnaval mantinha-se como a grande festa popular, com frevos de rua e corsos percorrendo as vias centrais da cidade e a Festa da Mocidade, realizada no Parque Treze de Maio, era tão famosa que atraía pessoas de outros Estados, com mais uma presença marcante dos estudantes na vida da cidade.

Os ensaios democráticos

A eleição de Pelópidas Silveira, em 1955, se deu num contexto de esperanças. Pelópidas era do Partido Socialista Brasileiro, obtendo uma votação expressiva: 66,87% dos votos, ganhando de longe do segundo lugar, Antônio Alves Pereira, que teve apenas 19,17% dos votos. Sua campanha contou com a participação de sindicatos, associações de bairros, numa aliança política, com presença significativa das forças da esquerda e com compromissos de buscar soluções para as questões sociais que afetavam a maior parte da população da cidade. Pelópidas não fugiu das diretrizes modernizadoras, mas se mostrou diferente dos governos municipais anteriores. Não concentrou suas ações nos chamados bairros centrais, buscando dialogar e incentivar a prática da cidadania. Uma clara tentativa de sair do populismo, para concretizar uma prática política democrática e popular. Sua maneira de conceber o urbanismo estava influenciada pelas idéias de Antônio Baltar e Lebret que não se limitavam, apenas, ao debate técnico do planejamento.

A organização da administração municipal foi modificada. Foram feitos concursos públicos, reestruturação de cargos e salários, mudanças no sistema de arrecadação dos tributos, disciplinamento no uso do solo e programa de atendimento às populações carentes, atingindo a alimentação, educação, cultura e habitação. Tudo isso revelava uma forte intervenção do poder público na vida da cidade; ao mesmo tempo ampliava-se a participação popular, com o crescimento das associações de bairro e de moradores. Havia condições políticas para que se democratizassem as relações de poder, para que se pensasse a modernização junto com a modernidade política.

Além das reformas políticas e administrativas, a cidade modificava-se no seu desenho urbano. Foram pavimentadas 57 vias, com a preocupação de facilitar o acesso aos subúrbios, melhorando o tráfego de veículos. Na zona central, destacou-se o alargamento e a pavimentação da Avenida Conde da Boa Vista, que exigiu gastos maiores, devido à desapropriação de vários imóveis. Outras importantes vias foram pavimentadas, como a Avenida Norte, a Estrada da Imbiribeira, merecendo também destaque a retificação e construção do Canal Derby-Tacaruna/Parque Amorim. Investiu-se na construção de galerias, canais, pontes, procurando melhorar as condições de vida nos chamados bairros de periferia como Beberibe e Água Fria. Muitas obras foram feitas no populoso bairro de Casa Amarela.

A inauguração do Parque Sítio Trindade, em 1958, atendeu a outras necessidades, como também a construção de praças, parques infantis, plantio de árvores em vias públicas, instalação de iluminação elétrica, obras que contribuíam para tornar a cidade mais moderna dentro de uma perspectiva estética e ampliando as áreas de convivência social. Modificou-se a política com relação aos mocambos. Permitiram-se reformas na sua estrutura e se procuraram soluções para o problema da habitação popular, com a compra de terrenos para serem loteados e vendidos à população mais carente, em prazos longos. Com relação ao transporte coletivo, implantou-se, com dificuldades, o sistema de ônibus elétricos, através da criação da Companhia de Transportes Urbanos. A experiência administrativa de Pelópidas se construía na busca de uma coerência entre as propostas do candidato com a realização de obras e intervenções que amenizassem os problemas de desigualdade social existentes, sem perder a legitimidade e a parceria com as organizações populares.

Pelópidas teve como sucessor Miguel Arraes de Alencar, também representando a Frente do Recife, compromissado em prosseguir uma gestão administrativa em que se priorizasse um projeto de governo popular. Arraes procurou dar seqüência ao que vinha sendo feito, atacando os problemas considerados básicos, como a ampliação do sistema de transporte coletivos, urbanização dos mocambos e construção de obras que melhorassem os bairros mais afetados pela miséria. A atuação do Movimento de Cultura Popular, na área de educação, foi um dos grandes destaques do governo de Arraes. Havia um déficit de mais de 45 mil crianças sem escolas que a Prefeitura procurou diminuir com a criação do MCP, em 1960. É interessante registrar que, segundo pesquisas recentes, já existia a atuação do município na educação desde o final do século XIX. O que há de importante a assinalar é que "a constituição do MCP é produto de uma ampla mobilização social deflagrada pelo poder público municipal, que coordena a ação de estudantes secundaristas, universitários, professores, profissionais liberais, religiosos de vários credos, comerciantes, industriais e entidades civis", conforme considera José Batista Neto, ao analisar o Movimento de Cultura Popular. A experiência da alfabetização com o método Paulo Freire foi bem sucedida e alcançou repercussão nacional. Arraes, interrompendo o seu mandato de prefeito, conseguiu eleger-se Governador do Estado de Pernambuco, em 1962. Durou pouco no cargo, apenas 13 meses, deposto pelo golpe militar de 1964.

Anos de chumbo se iniciavam. As experiências democráticas e seus atores sofreram forte repressão. O golpe não deve ser creditado, somente, à ação dos militares. Contou com a ajuda fundamental dos grupos mais conservadores da sociedade, temerosos de perder seus seculares espaços de poder. A cidade do Recife teve sua vida comprometida, sendo seus territórios de liberdade suprimidos, suas lideranças populares perseguidas ou eliminadas, sua memória de lutas considerada perigosa pelas forças dominantes. Retomava-se o autoritarismo, sem cerimônias. Continuava o discurso da modernização, do desenvolvimento, mas agora com ênfase na segurança e no controle social. Por maior que fosse o fechamento político, a sociedade não deixava de formular seus sonhos. O Recife conviveu com esses anos de chumbo, encontrando caminhos para manter o fio com sua história, mesmo que eles tivessem traçados labirínticos. Como registra Ítalo Calvino, em vários trechos do seu livro As cidades invisíveis, as cidades se alimentam da sua memória para se manterem vivas e se desfazerem de seus pesadelos mais angustiantes. Assim, não seria um devaneio afirmar que cada cidade contém todas as cidades, percorrer sua história é encontrar-se com a multiplicidade e conviver com a sinfonia, às vezes dissonante, de todos os tempos. Esse é o trabalho maior do historiador, sentir-se como decifrador de mistérios que têm respostas sempre transitórias, como a própria vida, a história e as cidades.

O RECIFE HOJE

A história no dia-a-dia

Este fascículo encerra uma coleção que, contando histórias, delineou a trajetória de uma cidade. Nos monumentos e ruínas, nos escritos e na rotina, por toda parte, vagam estas histórias, sem apego ao tempo.

São as histórias do Recife e dos recifenses, sem marco zero, feitas de acertos e de erros: de viver o dia-a-dia. Da cidade e do sonho de seus habitantes é feita a alma do Recife. Seu destino é escolhido ao sabor da rosa-dos-ventos que trazemos no coração. E assim, no futuro, quem sabe daqui a quinhentos anos, alguém leia no jornal uma bela história da qual, nós, vivendo nossas vidas, tomamos parte.

O Editor

Múltiplos tempos, múltiplas histórias

A história do Recife foi, aqui, analisada em seus múltiplos aspectos, sem a pretensão de desvendar todos os seus mistérios, inventariar todos os fatos, dialogar com todos os personagens.

A partir de 1964, o Brasil sofreu abalos políticos inquestionáveis que mudaram esperanças e redefiniram projetos. O período pós-64 nos traz lembranças amargas: caracterizou-se por fortes modificações na sociedade, pela consagração de um modelo econômico desenvolvimentista, fascinado pelas tecnologias, que não solucionou os problemas mais graves de desigualdade social, que ainda continuam. A cidade do Recife teve administrações que se definiram pela modernização e que, muitas vezes, desprezaram a preservação da memória, promovendo mudanças em nome do avanço técnico, desconhecendo os caminhos que poderiam levar a um diálogo de qualidade entre o antigo e moderno.

A preocupação com a preservação patrimonial ganhou espaço, no Brasil, a partir de 1930 e, no Recife, em meados da década de setenta. A partir de então, criaram-se possibilidades para evitar que essa memória fosse desfigurada de todo. Os espaços físicos, as construções, os monumentos, têm suas histórias. Quando promovemos suas ruínas, estamos contribuindo para o desmantelamento do passado, para esquecer e apagar lembranças e valores. O espaço de uma cidade revela conflitos entre o antigo, o moderno e as relações de poder que o compõem. Nem sempre o discurso da modernização significa uma redefinição na qualidade de vida dos ocupantes do espaço urbano, mas uma forma de esconder as contradições, afugentando, embora fragilmente, seus traços de miséria e de desigualdade. Podemos verificar isso, muitas vezes, nas investidas da especulação imobiliária tão presentes nas três últimas décadas da história do Recife. A cidade cresce, mas para onde ou para quem?

O Recife atual mantém ainda um forte diálogo com seu passado, que não pode ser desfeito. Isso significaria perda de identidade e fragmentação de uma memória, por si só, difícil de ser mantida. Isso não significa a defesa de um congelamento dos tempos, de um conservadorismo fechado para as ansiedades do futuro. Os tempos históricos devem buscar um equilíbrio na sua multiplicidade. A cidade e a cidadania podem ser vividas no sentido de que as escolhas busquem assegurar condições para que as definições da história não se limitem às imposições de uma minoria. O olhar do historiador está comprometido com essa abertura para o infinito, com a certeza de que a história não é um desfilar de nomes e datas, mas território de invenção e aventura que tem, na cidade, um espaço privilegiado para a fabricação de um cenário onde os personagens não se sintam como fantoches, mas como produtores do seu próprio texto.

A preservação da memória urbana

Pernambuco teve papel pioneiro, na preservação da memória urbana quando, em 1928, sai à frente na definição de iniciativas para preservação do patrimônio. A legislação federal e o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) somente surgem ao final da década de 30. No Recife, as normas que hoje regem a proteção do patrimônio edificado nascem no final dos anos 70, sob a orientação mais moderna que não se prende apenas aos monumentos excepcionais, mas privilegia conjuntos urbanos e seus significados culturais.

Nestes últimos vinte anos, todas as mudanças na legislação do Recife respeitaram e reafirmaram os princípios lançados naquele momento. Mantendo uma ótica eminentemente urbanística, para cada sítio é definido um perímetro de maior rigor na proteção e uma área maior de entorno, onde há limitações para se manter um contexto urbano integrado. Assim, a cidade tem, hoje, 33 Zonas Especiais de Preservação do Patrimônio Histórico, além de um conjunto de 154 imóveis especiais de preservação que podem ser integrados a novas construções.

Geraldo Marinho

A estrela, o leão, a cruz, o sol

Os símbolos do Recife e suas representações

Os símbolos de um povo invocam momentos históricos. Através dessa memória comum, buscam a união cívicadas pessoas que habitam o mesmo solo.

A bandeira

Através da Lei 11.210, de 15 de dezembro de 1973, a municipalidade recifense instituiu uma bandeira para a cidade, composta de símbolos que se referem a fatos memoráveis da história do Recife.

A bandeira do Recife é retangular e tem por base três colunas verticais, sendo que as laterais são em azul e a central em branco, reportando às cores da bandeira do Estado de Pernambuco, do céu brasileiro e da paz.

A força e a fé, ideais almejados pelo ser humano, são representados pela frase em latim Virtus et Fides.

Símbolos de fé, força e esperança completam o visual da bandeira do Recife. São eles: a cruz, representando a colonização portuguesa, que trouxe o cristianismo para o Brasil; o leão neerlandês coroado, em amarelo, remetendo ao escudo de armas de Maurício de Nassau e ao Leão do Norte, apelido adquirido por Pernambuco pelo seu potencial histórico de lutas e, por fim, o sol e a estrela, ambos em amarelo, aludindo ao nosso astro maior e à representação da república brasileira, considerada originária das terras pernambucanas, através do movimento de 1817.

O hino

A música é também fator de união. Mais uma vez, o Recife invoca o heroísmo de sua gente, através dos defensores dos ideais de liberdade característicos do século XIX no mundo ocidental.

O Hino da Cidade do Recife foi oficializado a 10 de junho de 1924 pelo Prefeito Antônio de Góis Cavalcanti.

HINO DA CIDADE DO RECIFE

Letra - Manuel Arão Música - Nelson Ferreira

I

Mauricéia! Um clarão de vitória A visão de tua alma produz Toda vez que no cimo da história Se desenha o teu vulto de luz.

Estribilho

Tecida de claridade, Recife sonha ao luar Lendária e heróica cidade Plantada à beira do mar.

II

Mauricéia! Um fulgor vive agora Que da Pátria foi belo fanal, Dezessete que data e que aurora, Coroando a cidade imortal.

III

E depois com suprema ousadia Uma voz se exalçou senhoril, Vinte e quatro, é daqui que irradia Nova luz para o céu do Brasil.

Aspectos Físicos de uma cidade anfíbia

Os rios que cortam o território do Recife lhe conferem características peculiares. A cidade está situada sobre uma planície aluvional (fluviomarinha), constituída por ilhas, penínsulas, alagados e manguezais envolvidos pelos braços dos rios Beberibe, Capibaribe, Tejipió, Jaboatão e Pirapama. Esta planície é circundada por colinas em arco que vão de Olinda, ao norte, até Prazeres, ao Sul.

Localização: 8º04'03" de latitude Sul, 34º53'00" de longitude Oeste, na faixa próxima à Linha do Equador.

Limites: morros com altitudes variadas que se prolongam desde Olinda, ao Norte, até Jaboatão dos Guararapes, ao Sul. A Leste, o litoral é guarnecido por extensos cordões de arenito (arrecifes); a Oeste, os municípios de Camaragibe e São Lourenço da Mata.

Percentual de território referente ao Estado de Pernambuco: 0,22%

Área territorial: cerca de 218,7 Km², sendo 67,43% morros, 23,26% planícies, 9,31% aquáticas

Áreas verdes (ZEPA): 5,5 %

Extensão da praia: 8,6Km

Média pluviométrica anual: 1500mm (nas proximidades do litoral)

Clima: tropical quente e úmido, com chuvas de outono-inverno. Alternam-se estações chuvosas e secas.

Temperatura média: 25ºC. O regime térmico possui relativa uniformidade, devido à proximidade do mar, com variação na ordem aproximada de 4ºC.

População: 1,34 milhão de habitantes (contagem IBGE - 1996)O RECIFE HOJEA história no dia-a-diaEste fascículo encerra uma coleção que, contando histórias, delineou a trajetória de uma cidade. Nos monumentos e ruínas, nos escritos e na rotina, por toda parte, vagam estas histórias, sem apego ao tempo.São as histórias do Recife e dos recifenses, sem marco zero, feitas de acertos e de erros: de viver o dia-a-dia. Da cidade e do sonho de seus habitantes é feita a alma do Recife. Seu destino é escolhido ao sabor da rosa-dos-ventos que trazemos no coração. E assim, no futuro, quem sabe daqui a quinhentos anos, alguém leia no jornal uma bela história da qual, nós, vivendo nossas vidas, tomamos parte.O EditorMúltiplos tempos, múltiplas históriasA história do Recife foi, aqui, analisada em seus múltiplos aspectos, sem a pretensão de desvendar todos os seus mistérios, inventariar todos os fatos, dialogar com todos os personagens.A partir de 1964, o Brasil sofreu abalos políticos inquestionáveis que mudaram esperanças e redefiniram projetos. O período pós-64 nos traz lembranças amargas: caracterizou-se por fortes modificações na sociedade, pela consagração de um modelo econômico desenvolvimentista, fascinado pelas tecnologias, que não solucionou os problemas mais graves de desigualdade social, que ainda continuam. A cidade do Recife teve administrações que se definiram pela modernização e que, muitas vezes, desprezaram a preservação da memória, promovendo mudanças em nome do avanço técnico, desconhecendo os caminhos que poderiam levar a um diálogo de qualidade entre o antigo e moderno.A preocupação com a preservação patrimonial ganhou espaço, no Brasil, a partir de 1930 e, no Recife, em meados da década de setenta. A partir de então, criaram-se possibilidades para evitar que essa memória fosse desfigurada de todo. Os espaços físicos, as construções, os monumentos, têm suas histórias. Quando promovemos suas ruínas, estamos contribuindo para o desmantelamento do passado, para esquecer e apagar lembranças e valores. O espaço de uma cidade revela conflitos entre o antigo, o moderno e as relações de poder que o compõem. Nem sempre o discurso da modernização significa uma redefinição na qualidade de vida dos ocupantes do espaço urbano, mas uma forma de esconder as contradições, afugentando, embora fragilmente, seus traços de miséria e de desigualdade. Podemos verificar isso, muitas vezes, nas investidas da especulação imobiliária tão presentes nas três últimas décadas da história do Recife. A cidade cresce, mas para onde ou para quem?O Recife atual mantém ainda um forte diálogo com seu passado, que não pode ser desfeito. Isso significaria perda de identidade e fragmentação de uma memória, por si só, difícil de ser mantida. Isso não significa a defesa de um congelamento dos tempos, de um conservadorismo fechado para as ansiedades do futuro. Os tempos históricos devem buscar um equilíbrio na sua multiplicidade. A cidade e a cidadania podem ser vividas no sentido de que as escolhas busquem assegurar condições para que as definições da história não se limitem às imposições de uma minoria. O olhar do historiador está comprometido com essa abertura para o infinito, com a certeza de que a história não é um desfilar de nomes e datas, mas território de invenção e aventura que tem, na cidade, um espaço privilegiado para a fabricação de um cenário onde os personagens não se sintam como fantoches, mas como produtores do seu próprio texto.A preservação da memória urbanaPernambuco teve papel pioneiro, na preservação da memória urbana quando, em 1928, sai à frente na definição de iniciativas para preservação do patrimônio. A legislação federal e o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) somente surgem ao final da década de 30. No Recife, as normas que hoje regem a proteção do patrimônio edificado nascem no final dos anos 70, sob a orientação mais moderna que não se prende apenas aos monumentos excepcionais, mas privilegia conjuntos urbanos e seus significados culturais.Nestes últimos vinte anos, todas as mudanças na legislação do Recife respeitaram e reafirmaram os princípios lançados naquele momento. Mantendo uma ótica eminentemente urbanística, para cada sítio é definido um perímetro de maior rigor na proteção e uma área maior de entorno, onde há limitações para se manter um contexto urbano integrado. Assim, a cidade tem, hoje, 33 Zonas Especiais de Preservação do Patrimônio Histórico, além de um conjunto de 154 imóveis especiais de preservação que podem ser integrados a novas construções.Geraldo MarinhoA estrela, o leão, a cruz, o solOs símbolos do Recife e suas representaçõesOs símbolos de um povo invocam momentos históricos. Através dessa memória comum, buscam a união cívicadas pessoas que habitam o mesmo solo.A bandeiraAtravés da Lei 11.210, de 15 de dezembro de 1973, a municipalidade recifense instituiu uma bandeira para a cidade, composta de símbolos que se referem a fatos memoráveis da história do Recife.A bandeira do Recife é retangular e tem por base três colunas verticais, sendo que as laterais são em azul e a central em branco, reportando às cores da bandeira do Estado de Pernambuco, do céu brasileiro e da paz.A força e a fé, ideais almejados pelo ser humano, são representados pela frase em latim Virtus et Fides.Símbolos de fé, força e esperança completam o visual da bandeira do Recife. São eles: a cruz, representando a colonização portuguesa, que trouxe o cristianismo para o Brasil; o leão neerlandês coroado, em amarelo, remetendo ao escudo de armas de Maurício de Nassau e ao Leão do Norte, apelido adquirido por Pernambuco pelo seu potencial histórico de lutas e, por fim, o sol e a estrela, ambos em amarelo, aludindo ao nosso astro maior e à representação da república brasileira, considerada originária das terras pernambucanas, através do movimento de 1817.O hinoA música é também fator de união. Mais uma vez, o Recife invoca o heroísmo de sua gente, através dos defensores dos ideais de liberdade característicos do século XIX no mundo ocidental.O Hino da Cidade do Recife foi oficializado a 10 de junho de 1924 pelo Prefeito Antônio de Góis Cavalcanti.HINO DA CIDADE DO RECIFELetra - Manuel ArãoMúsica - Nelson FerreiraIMauricéia! Um clarão de vitóriaA visão de tua alma produzToda vez que no cimo da históriaSe desenha o teu vulto de luz.EstribilhoTecida de claridade,Recife sonha ao luarLendária e heróica cidadePlantada à beira do mar.IIMauricéia! Um fulgor vive agoraQue da Pátria foi belo fanal,Dezessete que data e que aurora,Coroando a cidade imortal.IIIE depois com suprema ousadiaUma voz se exalçou senhoril,Vinte e quatro, é daqui que irradiaNova luz para o céu do Brasil.Aspectos Físicos de uma cidade anfíbiaOs rios que cortam o território do Recife lhe conferem características peculiares. A cidade está situada sobre uma planície aluvional (fluviomarinha), constituída por ilhas, penínsulas, alagados e manguezais envolvidos pelos braços dos rios Beberibe, Capibaribe, Tejipió, Jaboatão e Pirapama. Esta planície é circundada por colinas em arco que vão de Olinda, ao norte, até Prazeres, ao Sul.Localização: 8º04'03" de latitude Sul, 34º53'00" de longitude Oeste, na faixa próxima à Linha do Equador.Limites: morros com altitudes variadas que se prolongam desde Olinda, ao Norte, até Jaboatão dos Guararapes, ao Sul. A Leste, o litoral é guarnecido por extensos cordões de arenito (arrecifes); a Oeste, os municípios de Camaragibe e São Lourenço da Mata.Percentual de território referente ao Estado de Pernambuco: 0,22%Área territorial: cerca de 218,7 Km², sendo 67,43% morros, 23,26% planícies, 9,31% aquáticasÁreas verdes (ZEPA): 5,5 %Extensão da praia: 8,6KmMédia pluviométrica anual: 1500mm (nas proximidades do litoral)Clima: tropical quente e úmido, com chuvas de outono-inverno. Alternam-se estações chuvosas e secas.Temperatura média: 25ºC. O regime térmico possui relativa uniformidade, devido à proximidade do mar, com variação na ordem aproximada de 4ºC.População: 1,34 milhão de habitantes (contagem IBGE - 1996)

 
 
 

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1/12/23:  Festival de Cinema Indie 2023

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